PROSA

"Grande Sertão: Veredas" (trechos)*



O diabo existe e não existe

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular ideia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... (2001, p. 26).

O diabo na rua, no meio do redemunho...

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum - é o que digo. O senhor aprova? (...) Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens, até nas crianças - eu digo. (...) E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... (2001, p. 26).

A mandioca-mansa e a mandioca-brava

(...) Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada - motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas - vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (...) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo (2001, p. 27).

 

Trechos da 19ª edição de "Grande Sertão: Veredas" (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001). Reproduzido do blog http://relendorosa.blogspot.com/

rosa

João Guimarães Rosa (1908-1967) é um maiores nomes das letras brasileiras. Traduzido para vários idiomas, também era poliglota. Foi escritor, diplomata, novelista, romancista, contista e médico. Tinha erudição extremada, mas sua criação é repleta de palavras populares. Foi notável inovador da linguagem, praticante de invenções e intervenções semânticas e sintáticas

 

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
01.07.20 00h01 » Cérebros
01.07.20 00h01 » Almoço Nu (trecho)*
24.06.20 00h10 » Papel de parede*
24.06.20 00h10 » Seleta de frases*
17.06.20 17h31 » Sem pena? É quarentena
17.06.20 00h10 » Laboratório de deuses
17.06.20 00h10 » Sono e vigília*
10.06.20 16h45 » Está pedreira na clareira
10.06.20 00h10 » Ulysses (minitrecho)*
10.06.20 00h10 » Labirinto de rosas*
03.06.20 00h10 » "Grande Sertão: Veredas" (trechos)*
03.06.20 00h10 » Corá* (trecho)*
01.06.20 09h40 » Quer comprar?
27.05.20 00h10 » O pião*
27.05.20 00h10 » Detesto quem anda com uma pistola no bolso*
20.05.20 00h01 » A noiva do som*
20.05.20 00h01 » Última visita a Mallarmé
13.05.20 10h00 » A dama de branco*
13.05.20 10h00 » pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
06.05.20 10h00 » Frases de um autor polêmico

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet