PROSA

Corá* (trecho)*



Pai Chico estava tirando um trago de fumaça perto do Jirau, quando Manézinho entrou.

 — Papai, abençoa... Eu andava mesmo à sua procura pra mode uma coisa que lhe preciso dizer. 

O velho olhou de esguelha para o filho que não via desde três dias e tirou uma baforada do pito, sem dizer uma palavra.

— O pai sabe que ando gostando da Corá. Vem desde o ano passado esse namoro. Foi na festa do Espírito Santo... Ela também, pelos modos, gosta de mim. E eu vim dizer ao pai que estou resolvido a pedir a Corá...

Pai Chico quedou-se uns minutos olhando o rapaz que, de pé, diante dele, torcia entre as mãos o chapéu de carandá, numa visível atitude de constrangimento.

A tarde caía, fresca e suave, e no terreiro, em frente, um bando de galinhas, perus e angolas se espojava, perto de um moital de mangaritos. 

— Manézinho, — disse afinal o velho — Você é um homem para saber o que faz.. Você já tem mais de trinta e há muito não me consulta sobre seus negócios... Isso de casamento é coisa séria, é um passo que a gente depois que dá não pode recuar. Você sabe que eu estimo muito a Corá, que o pai dela, que Deus haja, foi um dos foi um dos meus melhores amigos... Conheci Corá, posso dizer, desde a hora de nascer. Foi sempre viva, esperta, ladina como quê... Quantas vezes carreguei a pequena no colo e fui com ela, já grandinha, ao mato, apanhar mangaba e marmelada! Mas Corá não lhe serve, meu filho. Para namoro, de passatempo está muito bom. Para mulher, não. Uma coisa é brincar, distrair com os agrados, conversas e passeios... Muita outra é  tomar mulher para toda a vida. Corá é moça andeja, cabecinha de vento. Não dá corte de dona de casa, não sai dali uma mãe de filho...

— Oh! Meu pai! — exclamou Manézinho, escandalizado com a linguagem rude do velho. — Ela é um pouco sapeca, lá isso é, mas se o pai visse como ela tem mudado aquele gênio...  

— Sim. Lábias para enganar bobos. A mim é que não pega. Olhe, assim foi a mãe dela, a Batica, que hoje anda aí por esses mundos de Deus... Aquilo é de raça, é de família e não há pior desgraça para um homem direito, sério, que quer trabalhar, do que topar com uma diaba dessas...Você sabe a história da Batica, não? Em vida do marido, ainda soube fingir, a ponto de ele nunca desconfiar... Depois, foi aquele corre-corre, a quem mais der. Não serve, meu filho... não serve. Desvanece disso, porque Corá vai no mesmo caminho da outra. Veja você o que ela pintou com o Tonico, na Serra. Depois, com o Zequinha, da siá Eusébia. Ainda há pouco com o filho do major Lalau. E até Deus me perdoe dizem que com o próprio Lalau, que é, você sabe, um maroto daqueles... Larga disso, Manézinho, que ela não lhe serve. Você repare bem uma coisa: aquela criatura tem parte com cobra. Ah! Tem! 

— Meu pai! Isso também é demais! Vancê tem prevenção a toa com a moça! - exclamou Manezinho, revoltado. 

— E o nome dela está dizendo o que ela é - continuou, sem perturbar-se, Pai Chico.

— Cobra corá... Você já botou tento em como ela anda, toda se requebrando, toda num ziguezague, num remelexo de cobra a se arrastar no chão? E as feições dela, Manézinho? Aquilo é vê cobra corá. Tal e qual.. Os olhinhos dela, a cor da pele, muito corada, a cabeça, muito preta, curta, quase sem pescoço, o jeito de mexer... Os dentes já viu bem os dentes de Corá? os de cima muito saídos, com aquelas presas... Hum... pode ser que me engane, mas ali ela tem, deve ter veneno guardado!

— Figa, meu pai! gritou, horrorizado, Manézinho. 

 

*Trecho do conto "Corá", de José de Mesquita (MT). Leia o texto na íntegra em http://www.jmesquita.brtdata.com.br/1930_Cora.pdf

mesquita

José Barnabé de Mesquita (1892-1961) - ou simplesmente José de Mesquita, nasceu em Cuiabá. É um dos maiores expoentes da literatura brasileira produzida em Mato Grosso, ao longo da história. Foi poeta parnasiano, romancista, contista, ensaísta, historiador, jornalista, genealogista e jurista


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