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Curiosidades e futilidades do calendário... e poesia no fim!



Muita gente acha que a denominação “bissexto” para o ano com 366 dias tem a ver com o duplo 66 da dezena e unidade. Vamos aproveitar este ano de 2020, que é bissexto, para ver se conseguimos clarear essa história. No embalo, a gente fica sabendo também de mais algumas futilidades em relação ao nosso calendário. Afinal, o que é fútil pode tornar-se útil em algum segundo da nossa existência...

Para explicar os atuais 28 dias de fevereiro e os 31 dias de janeiro e março, a mitologia (de almanaque) nos oferece uma lenda da Normandia. Segundo ela, fevereiro era na sua juventude um jogador incansável e fadado à derrota. Como possuía apenas os seus dias para apostar, propôs uma partida de dominó aos seus companheiros – também jogadores inveterados, mas ganhadores – janeiro e março. É possível deduzir o desfecho: janeiro e março venceram o jogo e cada um deles levou um dos dias de fevereiro (considerando que antes da aposta os três tinham 30 dias cada).

Sabemos todos que de quatro em quatro anos fevereiro tem 29 dias, como sabemos também que é isso que caracteriza os chamados anos bissextos. O motivo – não mitológico, mas científico – para o acréscimo desse dia está na movimentação da terra em relação ao sol. Já a explicação referente à denominação “bissexto” encontramos no antigo calendário romano. 

O ano romano, antes de ser totalmente reformado em 46 antes de Cristo, tinha apenas 10 meses: o primeiro mês era março, que coincidia com o início da primavera no hemisfério norte. Após as reformas, acrescentaram janeiro e fevereiro, antes de março, e os meses quinto (quintilis) e sexto (sextilis) passaram a ser chamados de julho e agosto em homenagem, respectivamente, aos imperadores Júlio César e César Augusto (mais em https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/calendario-romano).

Isso ajuda a esclarecer o porquê dos nomes setembro, outubro, novembro e dezembro (com base em números) fazendo referência à ordem de cada um desses meses na série. Os demais (janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho) têm seus nomes originados em divindades e datas especiais para os romanos daquela época.

O mês era dividido em três partes ou datas fixas: calendas, que deu origem ao termo calendário, era o nome do primeiro dia de cada mês, nonas era o sétimo dia e idos o décimo quinto nos meses de março, maio, julho e outubro. Nos demais meses, nonas era o quinto dia e idos o décimo terceiro. Calendas – do grego kalendae < kaleîn (chamar, convocar), donde veio o verbo latino calare – era a data em que o sacerdote “chamava”, “convocava” o povo para anunciar a lua nova. Nonas tem esse nome por ser o “nono” dia antes dos idos (do latim iduare: dividir) que, por sua vez, “divide” o mês em quase duas partes iguais.

O dia que precedia qualquer uma dessas datas se chamava pridie e o que vinha depois postridie. Os outros eram contados de acordo com o número de dias que faltava para a data fixa mais próxima, computando-se também o dia que se queria indicar. Por exemplo: para designar o dia 3 de janeiro, os romanos contavam os dias que restavam para as nonas (dia 5) de janeiro, que era a próxima data fixa. Feita a contagem regressiva, temos em latim: tertio nonas januarias: o terceiro dia antes das nonas de janeiro.

É desse raciocínio romano que se explica a denominação “bissexto” para o ano em que fevereiro tem 29 dias. No ano bissexto não era contado um dia após o 28, como fazemos nós. O dia a mais era inserido depois do sexto dia antes das calendas de março, correspondendo, hoje, a 24 de fevereiro. Com o acréscimo, fevereiro passava a ter dois (bis) sextos dias antes das calendas de março. Assim: o nosso 29 de fevereiro era o dia que precedia as calendas de março, o 28 era o terceiro dia antes das calendas, 27 era o quarto, 26 o quinto, 25 o sexto e o dia 24 o segundo sexto (bis-sextus). Quer dizer: o ano bissexto é aquele em que o mês de fevereiro tem “dois sextos” dias antes do primeiro de março (ou das calendas de março).

Depois dessa chatice toda (desculpe-me!), o bom é saber que - depois desta temporada de exceção provocada pelo novo vírus - o mundo nunca mais será o mesmo: será melhor! Enquanto isso... Ouça e veja o poema “A primavera não sabia", de Irene Vella (link abaixo).

https://youtu.be/djDKC_TSKs8

 
mourivaldo

*Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida é professor titular da USP, onde pós-graduou-se doutor em Filologia e Língua Portuguesa. Nascido na Bahia, ainda na infância, virou cuiabano, mas atualmente vive na urbe paulistana. De lá enviou-nos este texto e a fotografia onde dá uma certa pinta de integrar a turma do Chico Bento (msantiago@usp.br)

 

 


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