PROSA

...E o esquadrão ficou em vigília*



- Hei, Chico, carrea a penúltima!
- Qual o quê, amigo, Chico azulou, sentado nos sentidos...
- É, sim, Chico se perdeu no anverso da noite sem nome, por aí, por aí...
- Endereço de Chico!, quem sabe? Você, você conheceu Chico, meu garçon de estima e silêncio?! Chico, meu companheiro de choro mestre, mão pesada na borda do copo, borbulhando a dose de uísque no ponto do olho, na medida do agrado. Sim, Chico mesmo, síntese plúrima do Bar Internacional: quem o viu, quem o sabe?!

Um quarto de século, no mesmo Bar, pois, agora, o Inter morreu de morte fechada, crivado de ida-e-vinda da Lei federal, muda, fria, que não entende nada da crônica boêmia da cidade...

Agora, as portas arreadas num vazio gradeado de ninguém... Lá dentro, no salão da vida, ressonam fantasminhas - vozes impregnadas do Bar antigo... Tradição ferida no hábito que ficou feriado, sempre. No escritório central do Esquadrão, não mais recados, cartas, avisos no Caixa e Banco particular zelando os assuntos coletivos...

Essas calçadas, vagas calçadas sem sentido de madrugadas, agora, ficaram alfinetando o bulício seco da Avenida Vargas. Um desrumo de vida, emparedado de repartições públicas. Avenida funcionária de cartão-ponto, simples espaço físico por onde transitaram os conflitos, perdida de seu recheio humano, que perenizava a vida, no pouso alegre do Internacional.

Nessas calçadas, agora, só lembranças de passos marcados de antigos amigos:
- eles, os do Esquadrão do Sapato Branco,
- eles, os da Turma do Caixote,
- eles, os do bericotico,
- eles, também, os eventuais que se plantaram em permanência...
- e os bate-papo empoeirado de tempo-estória da cidade,
- os blocos-de-sujos, nos carnavais da Terra,
- políticos sem vitória sonorizando a queda,
- os eleitos, contabilizando o futuro,
- os de pensar e escrever bebendo a publicação dos erros tipográficos,
- e nós, inquilinos de tantas rodas de fazer amigos e amuos...

Por isso, em defesa da universalidade cultural do Internacional, o Esquadrão entrou em vigília, agonizando com ele.

Sons de dois clarins, clarinavam o silêncio do chuvisqueiro que madrugava; entrecruzavam-se no arrepio fúnebre da fidelidade em despedida. Vozes se levantaram na última mesa cativa que resistia ao mando. E a noite testemunhou o raro ritual do debruçar dos copos, um-a-um, em nome dos companheiros ausentes, e dos que se foram antes, remarcados num de-sempre.

Passo, passam, passamos hoje na viuvez da orfandade da Getúlio Vargas. Pesado vazio de vida. Boêmios cabeceiam, sem rumo, como formigas perdidas no carreador, pois,
- sem bar,
sem seu próprio bar bem íntimo,
o boêmio que devaneia
é um dramático que amplia o destino,
seu deserto é mais forte que o desespero.

 

*Texto de Silva Freire publicado em 1980 no jornal Correio da Imprensa e que consta no livro "A Japa e outros cronicontos cuiabanos", da Editora Carlini & Caniato. Já publicado no tyrannus em 2013

arquivo-família

freire

Benedito Sant´Ana da Silva Freire (1928-1921) nasceu em Mimoso (MT), localidade pantaneira, mas ouso dizer aqui que também foi cuiabano, já que honrou nossa cidade com a qualidade das suas letras

 


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