PROSA

Memória, asas pra que te quero



passarinho

Casal de Araras Canindé, seres celestiais que volta e meia fazem escala em pontos estratégicos do meu bairro

"É a hora em que o pássaro volta, / mas de há muito não há pássaros; / só multidões compactas / escorrendo exaustas / como espesso óleo / que impregna o lajedo; / desta hora tenho medo." Abro a crônica do momento com versos de "Anoitecer", de Drummond. Poema que jamais saiu de minha cabeça desde que o li, quando começava a amadurecer. E olha que já estou anoitecendo.

Ora, basta ver um pássaro (ou ave) cortando os céus para que os tais versos retornem, avivando minhas memórias literária e da infância. Meu apelido desde os primeiros anos é  Loro. Nome que também se refere aos papagaios. E aqui no bairro onde vivo, que já foi mais periférico, vejo e ouço inúmeros bípedes emplumados. O bairro cresceu muito, vorazmente, conforme convém à espeulação imobiliária e também à explosão demográfica.

a passarinheira

passarinhos

Outro passarinho que sobrevive na cidade é a Rolinha, que vive aos pares pelas ruas e quintais cuiabanos

Há mais de trinta anos vivendo aqui, raparei no sumiço de algumas espécies que sempre foram comuns no cerrado. Os beija-flores, aqueles verdes e fosforescentes e os marrons, maiorzinhos, nunca mais visualizei; assim como o misterioso Alma de Gato e a formosura da Juriti. Já cheguei a conviver com a lindeza do João Pinto e seu canto onomatopaico. Sumiram. Nunca mais...

Os mais comuns, atualmente, são o Suiriri (cujo nome científico é o do site), o Assanhaço; o Bem-Te-Vi; as Rolinhas, aquela marronzinha e a fogo-apagou, que é cinza; a Nhana Cocá, também conehcida como Choca Barrada e Maria Cocá; o Anu Branco;  o João de Barro; o Canarinho (Canário da Terra), com seu lindo canto; e o tradicional Sabiá-laranjeira. 

wagner lemes

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O macho da Ana Cocá, passarinho habitante do cerrado, que achou um jeito de ocupar espaços urbanos

Não estou considerando os pardais e as pombas urbanas. Esses infestam o bairro e, como vivem em bandos, atrapalham os outros bichos alados. Sazonalmente, grupos de periquitos verdes, sobrevoam o bairro com suas algazarras sonoras e às vezes dão um tempinho, ou pernoitam, em árvores por aqui. As Nandaias (ou Jandaias), da família dos periquitos (Psittacidae), mais raramente são vistas neste bairro onde vivo, o Recanto dos Pássaros, vizinho ao Jardim Universitário, Jardim Imperial e vários condomínios fechados.

Hoje, posso dizer que tem muito mais gente do que seres alados por estas bandas. Isso me dói um pouco, já que essas aves e/ou pássaros, têm sido expulsas de seu habitat natural, o cerrado. E foi por isso que abri a crônica com os versos visionários - e até meio fúnebres - do Drummond. 

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Alma de Gato, ave com canto estranho, que simplesmente sumiu do meu bairro, que já foi mais periférico

Mas agora chegou a vez de entrar em cena a Arara Canindé, aquele bicho alado de quase um metro de comprimento, de vocalização potente e escandalosa. Com coloração azul (nas costas) e amarela (no peito), elas são aves emblemáticas do cerrado e de valores simbólicos para muitas comunidades indígenas. 

São da mesma família que os periquitos, papagaios e nandaias. Apesar de bastante cobiçadas como animais de estimação, as Canindés têm resistido ao convívio avassalador com os seres humanos. Antes, o céu do meu bairro era cortado por elas e o pedaço aqui era apenas uma rota delas - a hora em que o pássaro volta. Atualmente, já há três ou quatro anos, elas têm feito uma pausa nestas bandas. Pousam em palmeiras e/ou em frutíferas, quando sua plumagem bela e vocalização que é um estardalhaço, chama a atenção dos humanos.

portal das missões

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Casal de Canarinhos (Canário da Terra), minúsculos passarinhos do cerrado que se adaptaram ao ambiente urbano

Então, é isso. Que as Araras Canindés continuem dando o ar da graça pelo meu pedaço. Elas e todos os seres viventes dos céus e das árvores, quanto possíveis. Encerro com uma lasquinha da prosa telúrica do bravo Manoel de Barros, em "Mundo Renovado":

"Pequenos caracóis pregam saliva nas roseiras. E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde".

 


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