PROSA

"A peste", dois parágrafos do romance*



Foi mais ou menos nessa época que os nossos concidadãos começaram a se inquietar com o caso, pois, a partir do dia 18, as fábricas e os depósitos vomitaram centenas de cadáveres de ratos. Em alguns casos, foi necessário acabar de matar os bichos, pois sua agonia era demasiado longa. Mas desde os bairros, exteriores até o centro da cidade, por toda parte onde o doutor Rieux passava, por toda parte onde os nossos concidadãos se reuniam, os ratos esperavam em montes, nas lixeiras ou junto às sarjetas, em longas filas. A imprensa da tarde ocupou-se do caso a partir desse dia e perguntou  se a municipalidade se propunha ou não a agir e que medidas de urgência tencionava adotar para proteger os seus munícipes dessa repugnante invasão. A municipalidade nada se tinha proposto e nada previra, mas começou por reunir-se em conselho para deliberar. Foi dada a ordem ao serviço de desratização para recolher os ratos mortos todas a madrugadas. Em seguida, dois carros do serviço de desratização deveriam transportar os animais até o forno de incineração de lixo a fim de serem queimados. 

Mas, os dias se seguiram, a situação agravou-se. O número de roedores apanhados ia crescendo e a coleta era a cada manhã mais abundante. A partir do quarto dia, os ratos começaram a sair para morrerem em grupos. Dos porões, das adegas, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para virem vacilar à luz, girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos. À noite, nos corredores e nas ruelas, ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia. De manhã, nos subúrbios, encontravam-se estendidos nas sarjetas com uma pequena flor de sangue nos focinhos pontiagudos; uns, inchados e pútridos; outros, rígidos e com bigodes ainda eriçados. Na própria cidade, eram encontrados em pequenos montes nos patamares ou nos pátios. Vinham, também, morrer isoladamente nos vestíbulos das repartições, nos recreios das escolas, por vezes nos terraços dos cafés. Nossos concidadãos, estupefatos, encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade.

 

*Prosa já publicada no tyrannus, em 2018, reproduzida de livro da biblioteca doméstica "A peste" (Editora Record), com tradução de Valerie Rumjanek Chaves

camus

Albert Camus (1913-1960) foi escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta francês, nascido na Argélia

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
08.07.20 00h10 » Meu negro de estimação*
08.07.20 00h10 » Não choro porque meus olhos ficam feios
04.07.20 14h19 » Marília, sonhos e sorrisos
04.07.20 11h31 » Quem vem lá?
01.07.20 00h01 » Cérebros
01.07.20 00h01 » Almoço Nu (trecho)*
24.06.20 00h10 » Papel de parede*
24.06.20 00h10 » Seleta de frases*
17.06.20 17h31 » Sem pena? É quarentena
17.06.20 00h10 » Laboratório de deuses
17.06.20 00h10 » Sono e vigília*
10.06.20 16h45 » Está pedreira na clareira
10.06.20 00h10 » Ulysses (minitrecho)*
10.06.20 00h10 » Labirinto de rosas*
03.06.20 00h10 » "Grande Sertão: Veredas" (trechos)*
03.06.20 00h10 » Corá* (trecho)*
01.06.20 09h40 » Quer comprar?
27.05.20 00h10 » O pião*
27.05.20 00h10 » Detesto quem anda com uma pistola no bolso*
20.05.20 00h01 » A noiva do som*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet