CRONICONTO

Dr. Popox



No Rio de Janeiro, no pacato bairro do Catete, havia a pensão Rosalina, que alguns chamavam de Hotel Pereira, por causa do nome do dono, um português de bigodes enormes que albergava toda a espécie de gente, desde o filho do papai expulso de casa até louco de jogar pedra. Morei lá dois anos quando fazia meu mestrado, nos idos de 1980.

Entre os pensionistas havia um especial, a quem chamavam de Dr. Popox, (que ninguém sabia o nome verdadeiro), porque abria a folha do armário e ficava eternamente a repetir a fórmula mágica:

-Popox, Popox, Popox...

Daí para ser chamado de Dr. Popox era pouca coisa, Era advogado formado, mas se vestia com um paletó, que pouco tirava, manchado de comida, um paletó em petição de miséria. Trabalhava no Banco do Brasil onde era advogado nos seus bons tempos, até que começou a fica estranho e a repetir a queda do Banco do Brasil. Foi aposentado e agora vivia na quela vidinha na pensão Rosalina.

Popox era sua fórmula pessoal, fantasmas no armário, onde conversava longo tempo com eles, até dar o grito primal:

-Popox...

Um dia o velho acorda à noite, quando tudo encarnava numa palavra que se tornara mágica: popox.

Às vezes trocava de terno e empunhando uma pasta cheia de códigos penais desestornava as pernas a andar pelo bairro. Ficava parecendo um médico. Ou era o que queria parecer.

Quando não tinha nada para fazer, se recolhia num canto e a uma mesinha começava a copiar o código penal. Eram folhas e mais folhas com que ia enchendo o armário. Enfim, mistérios do Dr. Popox.

O mundo todo murmurando a palavra mágica: popox...  Se alguém perguntava alguma coisa a resposta era um rio de popox.

Quando comia o escaldado ao almoço, entre as colheradas, a palavra estava sempre presente.

Às vezes, raivoso, increpava o mundo com discursos em que ninguém entendia nada a não ser a palavra popox. Embaixo da árvore na frente da pensão parecia um pastor protestante, desses do Largo do Machado, que enrolam o mundo com seus sermões apocalípticos. Outras vezes, calmo, a palavra mansamente murmurada: popox.

Onde o arranjara essa fórmula mágica? Uns diziam que passara de pai a filho, outros que achara num livro de rezas africanas.

Mudavam-se os pensionistas, entravam novos e saiam velhos e sempre o Sr, Popox com sua palavra preciosa. Havia um outro que trabalhava numa sapataria e só bebia de encher a cara aos sábados, por isso se chamava: Só-Sábado. Dizia ele:

-Esse Dr. Popox é um amgo perigoso. E Dr. Popox com seus sermões alocuções embaixo da árvore ou em frente do espelho do armário. 

Nem Matusalém com todos os seus anos era tão fiel a uma palavra. Um dia desapareceu durante toda uma semana, e afinal quando apareceu, quase que não o reconheceram; sujo, rasgado, ninguém sabia de onde vinha e nem para onde fora.  

Outro dia aqui em Cuiabá, um amigo carioca, veio nos visitar e disse que o Dr. Popox tinha morrido debaixo de um carro: andava fazendo sermões entre os automóveis e perdera a vida mais por mágica distraída da palavra popox do que por qualquer outra coisa.

Fiquei triste, afinal ele não fazia mal para ninguém e era um tipo especial, desses que não deviam morrer.

Enfim, pax romana, quem morre pela boca são os peixes e o Dr. Popox em nada se parecia com peixe. 

marcos vergueiro

dicke

Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008) nasceu em Chapada dos Guimarães (MT). Foi artista plástico e escritor, ganhador de vários prêmios literários. Tem sido alvo de inúmeros estudos acadêmicos, é canonizado pela crítica literária e mereceu honrosos elogios de autores como Guimarães Rosa e Hilda Hilst




 


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