PROSA

"Ensaio sobre a Jukebox" (trecho)*



No sonho, surgiam centenas de pessoas. Um general, ao mesmo tempo plagiador de Shakespeare, suicidava-se de tristeza ante o estado do mundo. Uma lebra corria através de um campo, um pato nadava rio abaixo. Uma criança se perdia, ante os olhos de todos. Ouvia-se dizer que os moradores da aldeia morriam, de hora em hora, e o padre só dedicava todo seu tempo aos funerais. (Peculiar o papel que os boatos têm no sonho - aquilo não era dito nem ouvido, apenas penetrava, silenciosamente, pelos ares.) O sangue que escorria do nariz do avô cheirava a pelo de cachorro molhado. Uma outra criança se chamava "Espírito". Agora, alguém anunciava, em voz alta, a importância do ouvir nos tempos atuais.

No dia seguinte - o tempo continuava chuvoso e, segundo os jornais, a província de Soria era aquela onde fazia mais frio em toda a Espanha - ele se preparou para sua caminhada de despedida da cidade.

(...)

Enquanto se afastava, rapidamente, ele olhava para trás, de longe, por sobre o ombro e via, assim, aquela moldura cinzelada "ao ar livre", para usar a expressão de Karl Valentin - e ainda mais claramente aquelas molduras que tinham sido deixadas vazias. Aquele edifício, tão largo quanto baixo (todos os blocos residenciais à sua volta eram mais altos do que ele), e com o céu acima, era precisamente a representação de uma ideia de arte e de arquitetura, apesar dos caminhões que passavam por ali, rugindo. Aquele edifício, tão diferente das fachadas paralisadas em seu entorno, parecia um mecanismo de musicbox, que funcionava justamente em seu silêncio, e que soava. Ocorreu-lhe que, àquela época, oitocentos anos antes, pelo menos na Europa, enquanto vigoravam aquelas formas, a história da humanidade, particular tanto quanto geral, tinha sido maravilhosamente explicada. Ou será que aquilo era apenas a aparência exterior daquela forma que penetrava em toda parte (e não de um simples estilo)? mas como tinha sido alcançada uma forma como aquela, tão real quanto infantil, e tão conciliadora?

    

*Trecho da novela de autoficção "Ensaio sobre a Jukebox" (Estação Liberdade), de Peter Handke, tradução de Luis Krausz. Reproduzido de https://www1.folha.uol.com.br/

alain jocard-afp

handke

Peter Handke nasceu em 1942, na Áustria. Foi o ganhador do Nobel de Literatura no ano passado. É escritor, poeta e também escreve para teatro e cinema


Voltar  

Confira também nesta seção:
08.07.20 00h10 » Meu negro de estimação*
08.07.20 00h10 » Não choro porque meus olhos ficam feios
04.07.20 14h19 » Marília, sonhos e sorrisos
04.07.20 11h31 » Quem vem lá?
01.07.20 00h01 » Cérebros
01.07.20 00h01 » Almoço Nu (trecho)*
24.06.20 00h10 » Papel de parede*
24.06.20 00h10 » Seleta de frases*
17.06.20 17h31 » Sem pena? É quarentena
17.06.20 00h10 » Laboratório de deuses
17.06.20 00h10 » Sono e vigília*
10.06.20 16h45 » Está pedreira na clareira
10.06.20 00h10 » Ulysses (minitrecho)*
10.06.20 00h10 » Labirinto de rosas*
03.06.20 00h10 » "Grande Sertão: Veredas" (trechos)*
03.06.20 00h10 » Corá* (trecho)*
01.06.20 09h40 » Quer comprar?
27.05.20 00h10 » O pião*
27.05.20 00h10 » Detesto quem anda com uma pistola no bolso*
20.05.20 00h01 » A noiva do som*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet