PROSA

O verbo automático e delirante



Nesta edição reproduzo parágrafos do romance "Nadja", livro icônico do movimento surrealista, publicado em 1928, de autoria de um dos principais nomes desse estilo literário inovador, que influenciou o modernismo e nos transporta para além da ficção. O texto,  autobiográfico, se desenvolve num local freqüentado por prostitutas e cartomantes, onde o narrador mergulha na convivência efêmera e tumultuada com a personagem-título, em meio ao labirinto urbano parisiense. Fiz uma compilação selecionando trechos pescados em dois sites

Trecho 1

"Se fosse tratada numa clínica particular, com todos os cuidados que são dispensados aos ricos, sem se submeter a qualquer promiscuidade que pudesse prejudica-la, mas, pelo contrário, confortada nos momentos oportunos pela presença de amigos, satisfeita além do possível em seus gostos, reconduzida gradativamente a um sentido aceitável de realidade, o que exigiria não trata-la de modo brusco, dando-lhe trabalho de faze-la regredir por conta própria á origem de sua perturbação, talvez me precipite acreditar que ela sairia desse mau passo. Mas Nadja era pobre, o que, no tempo em que vivemos, é suficiente para condena-la, a menos que perceba que não estava inteiramente em harmonia com o código imbecil do bom senso e dos bons costumes. Além disso, era só(...) Era muito forte, afinal, e muito fraca, como se pode ser , na convicção que sempre teve, e na qual a mantive por tempo demais, ajudando-a, talvez, a avançar o passo: ou seja, que a liberdade, adquirida neste mundo ao preço de mil renúncias, as mais difíceis, exige que desfrutemos dela sem restrições enquanto nos for dada, sem consideração pragmática de nenhuma espécie,e isso porque a emancipação humana, concebida em definitivo sob a sua mais simples forma revolucionária, que não passa da emancipação humana sob todos os aspectos, entendamos bem, segundo os meios que cada um dispõe, continua sendo a única causa digna de servir. Nadja foi feita para servir a essa causa, nem que fosse só para demonstrar que se deve fomentar em torno de cada ser uma conspiração muito particular, que não existe apenas na sua imaginação, a qual seria conveniente, do simples ponto de vista do conhecimento, levar em consideração, e também , mas muito mais perigosamente, para passar a cabeça, depois um braço, entre as grades assim afastadas da lógica , ou seja da mais odiável das prisões." (Reproduzido de http://boletim-lanterna.blogspot.com/)

Trecho 2

"No instante de deixá-la, quero fazer-lhe uma pergunta que resume todas as demais, uma pergunta que somente eu seria capaz de fazer, sem dúvida, mas que, pelo menos desta vez, encontrou resposta à altura: 'Quem é você?' E ela, sem hesitar: 'Eu sou uma alma errante.' Combinamos nos encontrar no dia seguinte no bar que existe na esquina da rua Lafayette com o faubourg Poissonnière. Diz que gostaria de ler um ou outro dos meus livros e insiste quando sinceramente ponho em dúvida o interesse que possa ter por eles. A vida é diferente do que se escreve". (Reproduzido de https://www.digestivocultural.com/)

Trecho 3

"Não se espere de mim a narrativa integral do que me foi dado experimentar nesse domínio. Limitar-me-ei aqui a lembrar sem esforços de fatos que, independentemente de qualquer instância de minha vontade, ocorreram comigo, e que me dão, por vias insuspeitáveis, a medida da graça e da desgraça particulares de que sou objeto; deles falarei sem ordens preestabelecida e conforme o capricho da hora que os fizer vir à tona." (Reproduzido de https://www.digestivocultural.com/)

breton

O poeta, escritor, ensaísta e crítico André Breton (1896-1966), nascido na França, costuma ser apontado como o principal líder e mentor do Surrealismo

 


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