PROSA

Lasquinhas da obra machadiana*



machado

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu e morreu no Rio de Janeiro

Reproduzo abaixo excertos de duas obras de Machado de Assis, escritor que dispensa comentários. Estou como que acertando as contas com uma terrível falha na minha formação literária: exceto seus contos, jamais havia lido sua prosa longa, o que estou fazendo agora. É assim que dizem: quando você não resolve seus problemas de antanho, eles te perseguem pelo resto da vida. Mesmo sendo ateu, necessito bradar aqui "deus me livre de morrer sem ler Machado". 

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"Homero conta que Vênus, descendo ao campo de batalha entre gregos e troianos, saiu dali ferida e ensanguentada. Iaiá teve a sorte da diva homérica; interpondo-se entre Jorge e Estela trouxe dali ferido o coração. Naquele espaço de alguns meses, obra de paciência e luta, de violência e simulação, para a qual fizera convergir todas as forças morais, não suspeitou que, vencendo ao outro, podia vencer-se a si mesma. Queria ser uma barreira entre o passado e o presente, sem cogitar na dificuldade do plano, nem nas consequências possíveis dele. Sobretudo, não pensou na moralidade da ação. Que podia ela saber disso? A suspeita ia até admitir a persistência do amor no coração da madrasta, mas não lhe atribuía mais do que uma aspiração ou saudade silenciosa; não sabia mais. Para combater esse inimigo inerte é que pôs em campo a porção de astúcia que a natureza lhe dera, as graças do rosto e a rara penetração de espírito." (trecho de "Iaiá Garcia")

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"Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da inteligência humana. Pode dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu, contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da espádua e do seio, cobertos pela cassa fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendonça via-lhe o perfil correto e pensativo, a curva mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ela trazia. A atitude convinha à beelza melancólica de Helena. O rapaz olhava para ela sem movimento nem voz." (trecho de "Helena")



*Preciso registrar que esse mergulho machadiano me foi promovido através de generoso presente que me foi ofertado pela querida amiga Natália Charbel, um box contendo os romances e contos consagrados do Bruxo do Cosme Velho.

 


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