POESIA/PROSA

Vinte e cinco horas*



—Professor, meu amigo, como vais em tuas vinte 
e cinco horas semanais? Já percebeste 
o buraco em teu paletó, e um estalo quando tua garganta dá um nó?
— Mas o buraco é minha sina; não busque a minha lida! Fuja disto!
Não permitas tornar-se um roedor e engolir a seco, o pó! 
Eu mesmo agonizo em calos na garganta. Pelejar? Não adianta! 
Engaiolado não canta. Sabes disto, não é? Tu nem precisas. 
Esquiva-te! Horroriza-te! Calafria-te! Corre disso!
— O buraco! É nele que te socas quando a banda toca? 
O que faz de ti o que tu és? A postura reverendíssima de uma pipoca?
— Não! Esquizofrevista, um Sísifo ao pé do monte: húmus em giz. 
Mas eu sou professor, oh, Antígone & Ismene. 
E se eu não conseguir a casa própria, que o diabo vos carregue!
— Que que caia sobre as nossas cabeças! Que seja, reles! 
Mesmo estertorando, tão diminuta é tua peleja! — Ismene braveja.
— Sou professor, Jocasta, e se eu não conseguir manter a casa, 
que o diabo vos carregue!
—Haverás de arranjar fundos — oh, miserável Jó —, 
para significar-te: alugas, pois, a tua flor, e vai-te à praça!
—Professor vinte e cinco horas, bravo Diógenes!  
Tu ganhas um pão pequeno e és tachado de gastador. 
Mandam-te economizar!  Ordenaram-te à prudência! 
Leciona, roedor. Abre a tua poupança!
Oh, coitado! Nunca deixaste de ser verme e de ter o âmago acirrado.
Tu escrevias teus infernais em poesia — e ninguém lia, 
porque não eram poesias; eram versos... 
E ainda ruminavam e ciscavam, precisamente 
ao meio dia, como quem queria ensinar ao universo 
a ser feliz, e não cabia — qual fulingem no dorso de panela vazia. 
(Vai dançar kalinka em botas longas de cossaco!).

 

*Texto enviado pelo autor ao tyrannus, em formato de poesia, mas que também cabe como prosa, especialmente, por tratar da função árdua do professor, cujo dia, será celebrado na terça (15). O autor já foi publicado na editoria poesia do tyrannus, classificando-se como um dos mais lidos no bimestre janeiro/fevereiro de 2019 (link abaixo)

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/poesia/11700/jose-amancio

amancio

Welington Silva escreve sob o pseudônimo de José Amâncio. É professor de escolas públicas, ecólogo e nefelibata. Nascido em 1979, na vila de karamarom. Fundador da Edições Parresia (www.edicoesparresia.com.br) e editor da Utsanga — rivista di analisi liminale (ISSN 2421-3365). Publicou livros, ensaios e artigos em lugares interessantes


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