CONTO

O paladar de Rabelar*



Para bom entendedor, meia mordida basta. Estivesse faminto, para Rabelar meia mordida era mais que suficiente para começar a receber, não sabia se vindas do estômago, informações sobre a vida passada, presente ou futura do cozinheiro. Não se considerava um paranormal, tampouco creditava à intuição o fluxo de dados que lhe vinha à mente ao mordiscar a pontinha de uma rabanada. Acreditava em algo físico, que do cozinheiro passava para a comida e que somente seu paladar decodificava. Seus pais, da geração paz, amor e uma folhinha de alface sem tempero, haviam-no condicionado a uma vida frugal. Nos tempos idos, comia com remorso qualquer coisa que tivesse sido esquentada por mais de cinco minutos.

Mais velho, já morando sozinho, instintos primitivos se apoderaram de Rabelar, que não resistiu aos encantos da chuleta, do toicinho e do galeto. Seu dom começou a manifestar-se. No início, na forma de uma leve empatia, uma sensação agradável de que a figura de avental engordurado diante da chapa era um velho amigo de infância, tal a impressão de já conhecê-lo. Logo percebeu as dimensões do legado. Não resistiu à tentação de dizer à senhora japonesa da barraca de pastéis que fechasse meia hora mais cedo, a tempo de chegar em casa e ver seu marido preparando a massa da vizinha. 

Ele mesmo não sabia cozinhar nada. Quando tentou aprender, assustou-se. Comer o próprio ovo frito era uma experiência de autoconhecimento. Os boatos de que o rapaz da casa da esquina lia a sorte nos alimentos fez com que surgissem os primeiros movimentos em sua porta. Logo, a coisa tomou tal proporção que, já pela manhã, da esquina de baixo era possível sentir o aroma dos pudins de leite, rissoles, brigadeiros e outras delícias que o povo da fila trazia para Rabelar. Ele recebia a todos, até que em seu estômago não coubesse nem mais um grão de arroz. E lá se iam as pessoas que não tinham conseguido ser atendidas, tristes com os quitutes intactos, que fariam a alegria dos parentes ou dos amigos de trabalho. No dia seguinte, mais uma vez, estariam lá com seu frango com polenta, seu rocambole de doce de leite, atrás de palavras que os fizessem entender um pouco melhor as receitas de suas vidas.

O número de pessoas contempladas a cada dia dependia de inúmeros fatores, o que tornava a espera imprevisível. Se, digamos, logo de manhã, Rabelar estivesse de barriga vazia e a primeira pessoa da fila lhe trouxesse magníficos croissants, mal saídos do forno e ainda cheirando a manteiga derretida, seria impossível não se empanturrar, o que condicionaria as próximas visitas à eficiência de sua digestão. Ou, então, se um dos desesperados exigisse uma informação muito remota, de ingredientes raros, seria preciso uma farta porção para que as respostas viessem à mente de Rabelar. Em qualquer desses casos, a insatisfação na fila cresceria, mas a fidelidade ao visionário permaneceria a mesma. 

Como todo fenômeno, Rabelar provocou controvérsias. Certa dona de casa, ao sair realizada graças ao acerto de suas confortantes palavras, espalhou na fila o boato de que o manjericão, combinado com outras dezesseis ervas, aguçava sobremaneira as qualidades do oráculo. E passou a vender a receita na fila, inicialmente de pessoa em pessoa, depois em uma barraquinha modesta, até que, por força da propaganda, foi chamada por uma editora para lançar um livro de culinária espiritual, com receitas que amplificavam o poder de previsão e aconselhamentos. Estudando o livro, nasceram os primeiros discípulos de Rabelar, sem nenhuma autorização ou repreensão do original, que preferia manter-se independente dos pais e continuar a usufruir das refeições gratuitas. Poucos, entretanto, lograram sucesso na concorrência ao modelo. Não conseguiam resistir à vontade, quase visceral, de criticar os pratos preparados pelos fiéis, e, ao invés de falar de amores, carreiras e famílias, aconselhavam mais uma pitada de sal ou uma clara para dar liga.

Não é exagero, como dizem os incrédulos, atribuir a harmonia de vários casamentos a Rabelar. Os maridos, desejosos de saber sobre a vitória do time no campeonato ou a verdade sobre a história do amigo que dizia ter um caso com a gostosa do RH, aprendiam a fazer suas primeiras gororobas. Suas mulheres, felizes, incentivavam, afirmando com todas as letras da sopa que só assim eles seriam recebidos pelo mestre. 

Quis o destino que, aos trinta e três anos, Rabelar tivesse a última passagem livre em uma artéria entupida pela gordura da picanha que comera no almoço daquele dia. Ao sentir o latejar no peito, o mal-estar e o estômago trabalhando, Rabelar ainda era capaz de balbuciar palavras sobre o passado, o presente e o futuro do ilustre churrasqueiro que matara o grande mestre. 

 

*Reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br

estevão

Estevão Azevedo nasceu em Natal (RN). Tem formação acadêmica. É escritor e editor. Já foi finalista (2009)e vencedor (2015) do Prêmio São Paulo de Literatura

 

 

 


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