ROMANCE (trecho)

Assim na terra como embaixo da terra (trecho inicial)*



Pouco havia restado, fossem homens ou animais. Enxadas e foices permanecem largadas nos cantos das plantações ressequidas pela falta de chuva. Um córrego estreito e malcheiroso fornece água, porém mingua visivelmente dia após dia, sugado pelo calor intenso que o evapora e deixa o ar úmido e pesado. Ainda há movimentação no galinheiro e alguns grunhidos na pocilga, o que garante carne na panela para os próximos dias; no mais, a escassez preocupa. Aguardam uma ordem, um comboio que virá buscá-los e levá-los a outra parte, mas a consternação aumenta desde que a comunicação com o lado de fora dos muros silenciou. As linhas telefônicas estão interrompidas há dias, e a última notícia que tiveram é que um oficial há de chegar ao local para uma inspeção final e os conduzirá  ao destino seguinte. De acordo com os cálculos, o oficial  está atrasado em pelo menos sete dias, e isso aumenta vertiginosamente o sentimento de angústia. Tudo o que fazem é aguardar.

Valdênio abana com o seu chapéu de palha algumas moscas que voejam em torno da carcaça do vira-lata seco, de costelas à mostra. Há dias que se alimentam dele. Morreu doente, com uma úlcera na barriga que se expandiu e o apodreceu gradativamente. O cão lambia a própria ferida, contemplava com tristeza e algum assombro sua carne definhar. A ferida surgiu pequena, do tamanho de uma verruga, acobreada. Aos poucos, o cão foi se tornando mais quieto e sua euforia com as sobras da cozinha foi diminuindo. Valdênio cozinhava um mingau para o cão,quando este deixou de se alimentar; por tão fraco, sua mordedura fragilizada já não triturava mais nada. Untou a ferida com algumas ervas e pólvora, mas não era o suficiente. Fazia dois dias procurava pelo cão sumido. Morreu debaixo de uma árvore com pouca folhagem. Valdênio pega a enxada caída próximo dali e abre um buraco raso onde coloca o animal esquelético, cobrindo-o com terra. Ao longe, um homem grita seu nome e acena para ele. Valdênio, ajoelhado, termina de espetar no solo avermelhado uma pequena cruz feita com dois gravetos. Levanta--se e caminha puxando a perna esquerda, apoiando-se numa bengala de madeira.

— Sim, senhor? — diz Valdênio.

— Melquíades quer falar com você — diz Taborda.

Valdênio vira-se para seguir até o escritório de Melquíades, quando Taborda o questiona sobre o cão.

— Vou sentir falta daquele cachorro — comenta Taborda.

— Todos nós, senhor.

— Nunca achei que fosse me apegar a um vira-lata tão vagabundo.

Valdênio conserva-se em silêncio, atento ao semblante doloroso do agente penitenciário. Aguarda que este levante os olhos e lhe dê permissão para ir até o escritório de Melquíades, agente superior e a maior autoridade dentro dos muros.

— Acho que é isso que acontece com a gente num lugar como este. A gente acaba assim, se apegando a qualquer trapo.

Taborda lança o olhar aguardado por Valdênio, que, apoiado na bengala, caminha devagar em direção à sala da diretoria, localizada no pavilhão central. Melquíades está sentado à sua mesa, com as mangas da camisa arregaçadas e o botão do colarinho desabotoado. De braços e pés cruzados, parece tão somente aguardar sabe-se lá o quê.

— Pois não, senhor?

— Valdênio, o que temos hoje para o almoço?

— Galinha, senhor.

— De novo?

— É o que temos e...

— Mas e o leitãozinho? — interrompe Melquíades.

— O que tem ele?

— Podemos assá-lo.

— Sim, senhor. Mas o Pablo já matou e depenou a galinha pra hoje.

— Eu estava pensando, Valdênio, podíamos deixar o leitãozinho para o dia em que o oficial chegar. Afinal, precisamos oferecer um almoço a ele.

— Como o senhor achar melhor.

Melquíades dá um pulo da cadeira e bate palmas uma vez. Seu entusiasmo tem se tornado cada vez mais estranho, e a perturbação no seu modo de agir tem afligido a todos na Colônia. Segura Valdênio pelos ombros e olha em seus olhos trêmulos:

— Estou certo, Valdênio, que você fará o melhor leitão assado de todo este maldito lugar.

— Vou me esforçar, senhor.

— Ainda temos aquela aguardente?

— O Bronco Gil ainda tem duas garrafas.

— Ótimo. Faremos um banquete para o oficial.

Solta os ombros de Valdênio com a mesma intensidade com que os agarrou, e este chega a perder o equilíbrio, mas, com a ajuda da bengala, novamente encontra o eixo para se firmar.

— Eu diria também que devemos ter um pouco de música aqui, não acha? Pablo ainda toca aquela gaita?

— O senhor confiscou a gaita.

— Confisquei? Verdade?

Melquíades enruga a testa e se questiona sobre o confisco da gaita de Pablo.

— E você, por acaso, sabe onde a coloquei?

— O senhor jogou do outro lado do muro.

— Joguei? — espalma a mão contra o próprio peito, admirado de sua conduta. — Quando foi isso?

— Semana passada.

Melquíades caminha ardiloso até bem próximo de Valdênio, como se surrupiasse os pensamentos do homem.

— E você saberia me dizer o motivo de eu ter confiscado a gaita?

Valdênio mantém os olhos baixos, fixos em sua perna aleijada. Não sabe se diz a verdade ou se responde apenas não saber de nada.

— Se o senhor confiscou, teve suas razões, senhor.

— Ah, muito bem. Boa resposta. Evidentemente eu tive os meus motivos e gostaria de saber: você concorda com os meus motivos?

Valdênio permanece cabisbaixo.

— Desculpa, senhor. Eu só trabalho na cozinha. Não entendo nada das leis.

— Não falo de leis, homem, falo de justiça. Pablo desacatou a minha ordem. Era necessária uma punição, não concorda?

— Sim, senhor — responde entre os dentes e com um engulho na garganta.


*Reproduzido de http://www.record.com.br . Parte inicial de obra vencedora do  Prêmio São Paulo de Literatura - 2018, na categoria Melhor Romance do Ano

ana paula

Ana Paula Maia é uma das expressões da literatura brasileira contemporânea, nascida em Nova Iguaçu (RJ). É escritora e roteirista, autora de livros como "Carvão Animal" (Record-2011), "De Gados e Homens" (Record-2013), "Assim na Terra como embaixo da Terra" (Record-2017) e "Enterre Seus Mortos" (Cia das Letras-2018), entre outros

 


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