CONTO

Caçando lebres, de noite*



...claro está que não pude dormir. Seria ótimo se pudesse ter uma maquininha registradora dos sonhos, bem mais, dos murmúrios da noite toda. Me debati em várias aventuras, proferi frases perfeitas que encheriam de brilho meus próximos livros, segui e encontrei a mulher perfeita, fiz pactos, ofereci a alma, me tornei uma, todas as câmeras de TV da cidade voltaram-se pra mim e de minha boca saíam as frases mais engraçadas, todos a minha volta riam e aplaudiam e ficávamos satisfeitos. Mas aí o exemplar original voltava e exigia o que era seu, o que havia, dizia, me emprestado por poucas horas e como flores num vaso sem água, eu murchava, minha boca de repente não tinha nada, nada, nada pra dizer, aquela luz, não sei se luz, mas aquela claridade que estava a minha volta desaparecia por completo e tudo migrava pra ela, a luz, os holofotes, as câmeras de filmagem, e eu ficava sozinha, com as costas curvadas, um contraste de roupas pretas na pele branca, os cabelos ralos mostrando o descampado da cabeça, os braços como os dos bonecos que inflam com o vento em postos de combustíveis, mas sem vento, entregues a sua constante inércia. Não restava nada além de voltar sozinha daquele lugar e retomar o computador, a cadeira de madeira do escritório e voltar à falta de imaginação usual, mas me dei conta de que havia chegado a um lugar do qual não sabia mais voltar. Era uma praça imensa, redonda, que estranho, não conheço praças redondas na minha cidade, sem árvores, sem carros, só aquela gente e o deserto e de repente pelo menos oito vias que saíam da estranha praça redonda e eu sem possibilidade de escolha porque ali não tinha GPS, não tinha Ipod e ninguém pra me dar essa informação básica, simples, que caminho tomar pra voltar à vidinha medíocre, nem tinha pra quem perguntar pois todos, todas aquelas pessoas distintas, olhavam o único alvo possível, a bela mulher que dizia coisas inteligentíssimas, contava enredos originais e ligava-os aos livros lidos na infância só pra fazer a pergunta de como aqueles livros tinham se tornado importantes e depois responder com hilaridade que muitas daquelas tramas não seriam imagináveis hoje, todas resolvidas pelos avanços tecnológicos, mas que de alguma forma, e era essa coisa aí, ela dizia, a forma era capaz de torná-los definitivos e nunca ultrapassados, era a forma de colocar as questões do nosso tempo o que contava e as pessoas não riam mais, anotavam em seus caderninhos os nomes de filósofos que deveriam ler depois, as cenas impagáveis dos grandes filmes do século passado e que tinham uma chave pra decifrar o nosso tempo, tudo estava lá, bastava ler os sinais, se pedia tão pouco, só ler os sinais, só saber manter os olhos abertos quando todos pediam que fechássemos de cansaço, vencer o cansaço e ficar olhando, todas as cenas de horror tinham algo pra nos dizer, só pra nós, pra ninguém mais, os novos escritores, os artistas, os vagabundos desse mundo, os que não precisam trabalhar duro nem nos campos, nem nas fábricas, os que eram escravos libertos, só esses poderiam ver o que ninguém mais vê, os jornalistas, se mantivessem os olhos e os ouvidos abertos e se conseguissem todas as noites antes de deitar fazer uma limpeza no cérebro como fazemos nossa higiene bucal ou do nariz, dizia ela, quem não sabe que temos que lavar o nariz com soro e depois assoar com força, mas sem partir as minúsculas veias, um sopro na medida certa, sem agressão, mas sem titubeios, assim era com o cérebro das pessoas que estavam expostas à notícia, deveriam ser asseados diariamente pra que deixassem um pouco livre algum espaço diante dos olhos e dos ouvidos. Eu começava a querer fazer um pacto novo, qualquer um que pudesse apenas me indicar o caminho pra sair da praça, aquela redondez era incômoda e a precisão de decidir por onde criar um corredor pra volta era algo absolutamente maior que minhas possibilidades, nem falar em qualidades, tão mínimas, olhos tão míopes e ela falou, Aquela rua ali, por exemplo, qualquer um pode ver aonde leva, não precisa ser especial pra ver aonde levam cada uma dessas ruas, não precisa ser nenhum gênio, basta não ser estúpido e olhar bem, que se sabe muito bem, pelo exemplo do passado, aonde cada uma delas nos leva. O problema, dizia ela, enquanto eu tinha a impressão de me transformar em um montinho de merda, ou pior, porque merda fede, e eu me sentia ainda mais insignificante, talvez um pedacinho de chuchu insípido abandonado no meio de uma praça do futuro, um lugar que não me diz absolutamente nada, O problema, dizia ela, é ver além de onde esse caminho nos leva e abrir com as próprias mãos caminhos que ainda não existem, caminhos feitos de matéria não palpável, por favor, não sejam pequenos, eu não falo de abrir estradas, de construir novas rotas para os aviões, eu não falo de voltar às comunidades primitivas, eu falo de algo ainda não conhecido, eu não diria nunca progresso, eu diria uma neblina como nos dias sem sol, aquela cortina que se forma por cima dos mares e esconde os morros e muda a geografia. Quando as coisas perdem a fixidez, quando não tem mais contorno, nós, aí, sim, poderíamos fazer o caminho como quiséssemos. O caminho do sonho é maleável, a imaginação, aquela que se alcança só depois de escovar os cabelos tantas vezes que não há mais cabelos, não há mais o pente, aquele ler o que não está escrito, é só isso, é tão simples, é só ler o que não está escrito. Pra que mais o mundo? E a essas alturas ninguém mais sabia de si, as câmeras perderam todo o sentido, os microfones estavam virados pra baixo, as cadernetas fechadas e ninguém mais estava ouvindo, cada um achando a tarefa difícil demais, mas aí a mulher disse, Vou contar uma coisa pra vocês e todos se animaram de novo, fez-se um pequeno grupo mais à frente que redirecionou as câmeras, houve empurra-empurra, todos queriam estar mais perto daquilo que ela ia contar, todos queriam transmitir em primeiríssima mão, todos queriam ser os que possibilitaram ao mundo aquela narrativa que poderia conter uma informação muito, mas muito importante, e mais, urgente, e indispensável e era preciso que ficasse claro quem foi que conseguiu arrancar dela primeiro as importantes palavras e de quem eram os méritos de terem conseguido encontrar aquela mulher. E todos estavam fazendo tanto barulho que eu não conseguia escutar a história, que se tornou impossível, eu só podia alcançar os gestos mímicos daquela mulher e podia ver sua boca e além da sua boca grande, vermelha e bonita, cheia de coisas bonitas que saíam dela e seus braços que acompanhavam as palavras posicionados perto da boca como se fossem eles os portadores de palavras e não as vias que conhecemos, a voz saía da ponta dos dedos, do modo como estava posicionado o peito, a voz vinha e trazia as palavras de seu profundo desprezo mas também sua imensa generosidade, ela entendia, parecia, cada uma daquelas pessoas que arrumavam seus equipamentos que não eram apropriados para alcançar aquele novo tipo de fala, nada ficava registrado, mas Tudo bem, se pudessem ouvir sem gravar, disse uma delas que não se conformava em não ter o órgão certo pra ouvir aquela novidade, e já pensava em como contaria aquela história no seu jornal e estava até tentando escolher numa imensa, mas não inesgotável, lista de palavras e frases conhecidas, pensava em como seria brilhante e quanta honra pro seu jornal poder democratizar aquela informação tornando-a acessível a todos, todos os habitantes do país, e pensou que seu chefe ficaria muito feliz e talvez até conseguisse um contrato internacional e pela primeira vez ela veria sua fotografia na capa de um jornal importante, importante mesmo, de outro país, suas palavras seriam traduzidas para várias línguas e ela ficaria lembrada para todo o sempre como a repórter do interior, que começou do zero, que quase passou fome até, aquela que venceu todas as dificuldades e agora se colocava como a única interprete capaz de decifrar a notícia realmente importante para o mundo e viu com sua fotografia em vários jornais em cima da mesa do chefe, um cheque com muitos zeros à direita e ela pensou no carro novo, na casa de dois andares, na casa que daria pra sua mãe, lá no interior, para seus irmãos, nas festas para os amigos, nas férias merecidas, na viagem de volta ao mundo e sempre, por todos os lugares, muitos jornalistas, muitas câmeras fotográficas, várias entrevistas e de repente ela viu o palco da praça redonda e percebeu que não tinha palavra nenhuma. Eu tinha conseguido várias, mas não podia guardá-las, não tinha nenhuma bolsa comigo, como pude ir pra aquele lugar sem nada nas mãos, sem bolso, nada, nada onde pudesse guardar as palavras que se esfumavam e iam se dissipando uma a uma. Eu corria atrás de cada vestígio, de cada minúscula partícula da matéria da fumacinha e quando conseguia tê-la nas mãos via apenas seu desaparecimento e uma angústia grande foi crescendo e já era mais importante ter as palavras do que ter o caminho e vi que as palavras ao fugirem de minhas mãos e se encaminharem para o definitivo desaparecimento iam em uma direção, como as bolhas de sabão que vão com o vento, mas não tinha vento e as palavras-fumaça iam, assim mesmo, na direção esquerda da praça redonda e eu achei que elas estavam me indicando o caminho e fiquei feliz e fui, mas quando dei o passo, meus pés estavam muito pesados e era muito difícil arrastar minhas pernas, parecia que o melhor era cortá-las, e os braços, que também pesavam e as palavras-fumaça agora indicavam claramente o caminho e meu corpo me impedia de andar e comecei a vomitar meus órgãos e a ficar leve e me transformar em fumaça e já era possível ir atrás das palavras e desvendar seu significado, o caminho certo a seguir, e foi assim que no meio daquele caminho que todos podiam ver aonde ia chegar, menos eu, consegui entrar em contato com as palavras e desvendar a história inteira e fiquei feliz, feliz, pois já sabia como sair do sonho e escreveria uma história tão bonita que meu romance ganharia todos os prêmios e acordei balbuciando uma frase perfeita que esqueci ao abrir os olhos.

 

*Reproduzido de http://www.mallarmargens.com

ieda

Ieda Magri é nome forte na literatura brasileira contemporânea. Nasceu em Santa Catarina, mas está radicada no Rio de Janeiro. Possui respeitável formação acadêmica, é professora de literatura e autora, entre outras publicações, dos livros "Tinha uma coisa aqui" (7Letras, 2007) e "Olhos de bicho" (Rocco, 2013), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2014

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
20.10.19 12h00 » O ladrão*
16.10.19 20h00 » Representações da violência*
13.10.19 12h00 » Vinte e cinco horas*
09.10.19 19h00 » Acidente*
06.10.19 12h00 » Escorpião, crônica de jornal*
02.10.19 18h30 » Seleção de frases*
29.09.19 13h30 » A incrível história de José dos Anjos
25.09.19 20h30 » Pílulas de educação sentimental para jovens*
22.09.19 11h00 » Frases e aforismos
18.09.19 20h30 » Processo 146952404*
15.09.19 18h00 » Tio Nhonho
11.09.19 21h00 » Um Assovio* (ato primeiro - cena I)
08.09.19 19h30 » Conto*
05.09.19 12h00 » O paladar de Rabelar*
02.09.19 00h10 » Não existe dia ruim*
29.08.19 12h00 » Amado*
26.08.19 12h00 » Assim na terra como embaixo da terra (trecho inicial)*
22.08.19 19h00 » Caçando lebres, de noite*
19.08.19 17h00 » Em busca do tempo perdido (parágrafo)*
15.08.19 18h00 » Citações e aforismos

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet