CONTO

Para sempre em cima*



Feliz aniversário. Treze anos é muito importante. Talvez seu primeiro dia realmente público. Treze anos é a chance de as pessoas reconhecerem que coisas importantes estão acontecendo com você.

Coisas vêm acontecendo com você faz meio ano. Você agora tem sete pelos debaixo do braço esquerdo. Doze debaixo do direito. Perigosas espirais duras de grossos pelos pretos. Pelos fortes, animais. Agora, em torno das suas partes há mais pelos duros e crespos do que você consegue contar sem perder a conta. Outras coisas. Sua voz está grossa e rouca e muda de tom sem aviso. Seu rosto começou a ficar brilhante quando você não o lava. E duas semanas de uma dor profunda e assustadora esta última primavera o deixaram com uma coisa pendurada lá de dentro do corpo: seu saco agora está cheio e vulnerável, um bem a ser protegido. Suspenso e preso em um apertado suporte atlético que deixa uma marca vermelha em suas nádegas. Você desenvolveu uma nova fragilidade.

E sonhos. Há meses tem havido sonhos como nunca antes: molhados, movimentados, distantes, cheios de curvas fechadas, pistons furiosos, calor e uma grande queda; e com as pálpebras tremulando você acorda com um ímpeto, um jorro e um tranco de enrolar os dedos do pé e arrepiar os cabelos que vem lá de dentro de tão fundo que você nunca pensou, espasmos de uma dor funda e doce, a luz da rua que entra pela veneziana explodindo em estrelas nítidas no teto preto do quarto e aquela densa geleia branca que chia entre as pernas, escorre e gruda, esfria em cima de você, endurece e fica transparente até não sobrar nada senão os pelos animais embaraçados e duros no chuveiro de manhã e no emaranhado molhado um cheiro doce e limpo que não dá para acreditar que vem de uma coisa fabricada dentro de você.

O cheiro é, mais que qualquer outra coisa, como esta piscina: clorado salgado e doce, uma flor com pétalas químicas. A piscina tem um forte cheiro azul transparente, embora você saiba que o cheiro nunca é tão forte quando você está mesmo dentro da água azul, como está agora, todo nadado, descansando do lado raso, a água até o quadril lambendo onde está tudo mudado.

Em volta do deque desta velha piscina pública na borda oeste de Tucson há uma cerca Cyclone cor de estanho, decorada com um brilhante emaranhado de bicicletas com cadeado. Mais adiante disso um estacionamento preto quente cheio de faixas brancas e carros cintilantes. Um campo sem graça de grama seca e ervas daninhas duras, cabeças felpudas de dentes-de-leão velhos explodindo e nevando no vento que sobe. E além disso tudo, avermelhadas por um redondo e lento sol de setembro, estão as montanhas, recortadas, os ângulos duros dos picos escurecendo definidos contra o vermelho profundo de uma luz cansada. Contra o vermelho seus duros picos ligados formam uma linha cheia de pontas, um ECG do dia que morre.

As nuvens estão ficando coloridas na borda do céu. A água é de lantejoulas azul-claras, com a mornidão das cinco horas e o cheiro da piscina, como o outro cheiro, se liga a uma neblina química dentro de você, uma penumbra interior que dobra a luz para seus próprios fins, abranda a diferença entre o que termina e o que começa.

Sua festa é hoje à noite. Esta tarde, no seu aniversário, você pediu para vir à piscina. Quis vir sozinho, mas aniversário é um dia familiar, sua família quer estar com você. Isso é bom e você não pode falar por que queria vir sozinho, de verdade verdade mesmo você talvez não quisesse vir sozinho, então eles estão aqui. Tomando sol. Pai e mãe, sol. As espreguiçadeiras deles estiveram marcando o tempo toda a tarde, girando, acompanhando a curva do sol por um céu deserto aquecido até virar uma película como de ovo. Sua irmã joga cabra-cega perto de você no raso com um grupo de meninas magras da classe dela. Está vendada agora, a cabra dela cegada. Está de olhos fechados e girando aos diversos gritos, rodopiando no centro de uma roda de meninas estridentes de touca de banho. Nasceram flores de borracha na touca de sua irmã. São pétalas pink molengas que se sacodem quando ela investe contra o som cego.

Lá do outro lado da piscina ficam o tanque de mergulho e a torre do trampolim alto. Lá no fim do deque fica a LAN HONETE e, dos dois lados, pendurados acima da entrada de cimento para os chuveiros escuros e molhados e os armários, há alto-falantes portáteis de metal cinzento que tocam a música de rádio da piscina, o estrépito rachado e metálico.

Sua família gosta de você. Você é inteligente e quieto, respeitoso com os mais velhos - embora não seja frouxo. Você no geral é bom. Cuida da sua irmãzinha. É aliado dela. Tinha seis anos quando ela tinha zero e estava com caxumba quando a trouxeram para casa em um cobertor amarelo muito macio; você deu um beijo de alô nos pés dela cuidando para ela não pegar sua caxumba. Seus pais dizem que isso foi um bom augúrio. Isso deu o tom. Eles agora sentem que estavam certos. Em tudo se orgulham de você, satisfeitos, e retiraram-se para aquela cálida distância de onde viajam o orgulho e a satisfação. Vocês se dão muito bem.

Feliz aniversário. É um grande dia, grande como o teto de todo o céu do sudoeste. Você pensou bem. Lá está o trampolim alto. Eles vão querer ir embora cedo. Você sobe e faz o que tem de fazer.

Sacode o azul limpo. Está meio desbotado, solto e mole, amaciado, as almofadas dos dedos enrugadas. A névoa do cheiro limpo demais da piscina entra nos olhos; quebra a luz em cores suaves. Você bate na cabeça com o calcanhar da mão. Um lado faz um eco frouxo. Inclina a cabeça de lado e pula - súbito calor na orelha, delicioso, e a água aquecida no cérebro esfria na concha de fora do seu ouvido. Você pode ouvir música metálica mais dura, gritos mais próximos, muito movimento em muita água.

A piscina está lotada para tão tarde. Aqui crianças magras, homens animais peludos. Meninos desproporcionais, inteiros pescoço, pernas e juntas nodosas, peito afundado, vagamente parecidos com pássaros. Como você. Aqui velhos andando no raso com cuidado em cima de pernas finas, sentindo a água com as mãos, fora de todos os elementos ao mesmo tempo.

E meninas-mulheres, mulheres, cheias de curvas como instrumentos ou frutas, pele lustrosa marrom brilhante, os tops dos biquínis presos por delicados nós de frágeis cordões coloridos segurando pesos misteriosos, a parte de baixo montada em suaves saliências de quadris totalmente diferentes dos seus, inchaços e curvas exagerados que derretem em luz num espaço circundante que colhe e acomoda as curvas macias como coisas preciosas. Você quase entende.

A piscina é um sistema em movimento. Aqui agora há: colos, lutas na água, mergulhos, pegador, mergulho-bomba, Peixinho & Tubarão, grandes saltos, cabra-cega (sua irmã ainda está no centro, meio em lágrimas, demorando demais no centro, a brincadeira já beirando a crueldade, você não tem nada com isso, não pode salvar nem atrapalhar). Dois menininhos brancos-brilhantes cobertos com toalhas de algodão correm ao lado da piscina até o guarda paralisar os dois com um grito no alto-falante. O guarda é marrom como uma árvore, pêlos loiros numa linha vertical pela barriga, na cabeça um chapéu de explorador da selva, no nariz um triângulo de creme branco. Uma menina está com o braço em volta de uma perna da torrinha dele. Ele está entediado.

Saia agora e passe por seus pais, que estão tomando sol e lendo, sem levantar a cabeça. Esqueça a toalha. Parar para pegar a toalha quer dizer conversar e conversar quer dizer pensar. Você concluiu que ficar apavorado é resultado principalmente de pensar. Passe direto, para o tanque do lado fundo. Acima do tanque uma grande torre de ferro branco sujo. Uma prancha se projeta do alto da torre como uma língua. O piso de concreto do deque da piscina é áspero e quente contra as solas de seus pés desbotados. Cada pegada que você deixa é mais fina e mais tênue. Atrás de você, cada uma se encolhe na pedra quente e desaparece.

Fileiras de salsichas plásticas boiam no tanque, que é inteiramente isolado, vazio do balé convulso de cabeças e braços do resto da piscina. O tanque é azul como energia, pequeno, fundo e perfeitamente quadrado, cercado pelos lava-pés, a LAN HONETE, o áspero e quente deque e a sombra tardia e curva da torre e da prancha. O tanque está quieto e parado, liso entre mergulhos.

Há um ritmo nele. Como respiração. Como uma máquina. A fila para o trampolim se curva na direção da escada da torre. A linha avança em sua curva, endireita ao chegar perto da escada. Uma a uma, as pessoas chegam à escada e sobem. Uma a uma, espaçadas pelo bater de corações, chegam à língua da prancha no alto. E uma vez na prancha, param, cada uma exatamente na minúscula pausa de um bater de coração. E as pernas as levam à ponta, onde dão uma espécie de pulinho batendo os pés, os braços curvados adiante como quem descreve alguma coisa circular, total; descem pesadamente sobre a ponta da prancha e fazem com que ela os jogue para cima e para fora.

É uma máquina de cair, linhas de movimento gaguejante em uma doce névoa de cloro tardia. Dá para ver do deque quando elas chegam no frio lençol azul do tanque. Cada queda forma um branco que se empluma e cai sobre si mesmo, se espalha, chia. Então o azul limpo emerge no meio do branco e se espalha como pudim, renovando tudo. O tanque se cura. Três vezes enquanto você vai.

Você está na fila. Olha em torno. Parece entediado. Poucos falam na fila. Todo mundo parece sozinho. A maioria olha a escada, parece entediada. Você e quase todos estão com os braços cruzados, resfriados por um vento de fim de tarde seco que sobe nas constelações de contas cloradas azuis, claras, que cobrem suas costas e ombros. Parece impossível que todo mundo esteja realmente tão entediado. A seu lado o limiar da sombra da torre, a língua negra inclinada da imagem da prancha. O sistema de sombra é imenso, comprido, sai para o lado, ligado à base da torre em um ângulo duro.

Quase todo mundo na fila para a prancha olha a escada. Meninos mais velhos olham os bumbuns de meninas mais velhas quando elas sobem. Os bumbuns estão dentro de pano fino e macio, náilon elástico justo. Os bons bumbuns sobem a escada como pêndulos em líquido, um suave código indecifrável. As pernas das meninas fazem você pensar em gazelas. Parecem entediadas.

Olhe adiante. Olhe através. Você pode ver tão bem. Sua mãe está na espreguiçadeira do deque, lendo, olhos apertados, o rosto voltado para cima para receber luz nas bochechas. Não olhou para ver onde você está. Ela bebe alguma coisa doce de uma lata brilhante. Seu pai está deitado em cima da sua grande barriga, as costas sugerindo uma corcova de baleia, ombros curvados com espirais animais, pele coberta de óleo e empapada vermelha-marrom de sol demais. Sua toalha está pendurada na cadeira e um canto do pano agora se move - sua mãe bateu nela ao espantar uma abelha de mel que gosta do que ela tem dentro da lata. A abelha volta imediatamente, parecendo parar imóvel sobre a lata em um doce borrão. Sua toalha é uma cara grande do Urso Yogi.

Em algum momento tem de haver mais fila atrás de você do que na frente. Ninguém na frente a não ser três na escada estreita. A mulher bem à sua frente está nos primeiros degraus, olhando para cima, com um maiô preto de náilon justo que é uma peça só. Ela sobe. Lá de cima vem um rumor, depois uma grande queda, depois uma pluma e o tanque cicatriza. Agora dois na escada. As regras da piscina dizem um de cada vez na escada, mas o guarda nunca grita por causa disso. O guarda cria as regras de verdade gritando ou não gritando.

Essa mulher acima de você não devia usar maiô tão apertado quanto o maiô que está usando. É tão velha quanto sua mãe e tão grande quanto ela. Ela também é grande e branca demais. O maiô está cheio dela. A parte de trás de suas coxas está apertada pelo maiô e parece queijo. As pernas dela têm abruptos rabisquinhos azuis de veias desfeitas por baixo da pele branca, como se alguma coisa estivesse quebrada, machucada, em suas pernas. As pernas dela parecem doer por causa do aperto, cheias de linhas arábicas curvas de frio azul quebrado. As pernas dela fazem você sentir as suas pernas doendo.

Os degraus são muito estreitos. Isso é inesperado. Finos degraus de ferro redondo cobertos de escorregadio feltro Safe-T molhado. Você sente gosto de metal no cheiro de ferro molhado à sombra. Cada degrau afunda nas solas de seus pés e as marca. As marcas parecem fundas e doem. Você se sente pesado. Como a mulher grande acima de você deve se sentir. Os corrimãos ao longo dos lados da escada também são muito finos. É como se não desse para segurar neles. Você tem de esperar que a mulher também vá segurar. E é claro que de longe pareciam menos degraus. Você não é burro.

Chega a meio caminho, lá no alto, aberto, mulher grande acima de você, um homem sólido musculoso e careca na escada abaixo de seus pés. A prancha ainda lá no alto, invisível daqui. Mas ela estremece e faz um som pesado de bate-e-volta e um menino que você só vê durante uns poucos centímetros contidos entre os finos degraus cai num flash de linha, um joelho dobrado no peito, fazendo um splash. Um grande ponto de exclamação de espuma entra em seu campo de visão, depois se espalha e cai num grande borbulhar. Então o som silencioso do tanque cicatrizando em novo azul outra vez.

Mais degraus finos. Segure bem. O rádio é mais alto aqui, um alto-falante no nível da orelha acima da entrada de concreto do vestiário. Um bafo frio e úmido do interior do vestiário. Agarre forte as barras de ferro e vire, olhe para baixo, para trás, e dá para ver as pessoas comprando salgadinhos e refrigerantes lá embaixo. Dá para ver direitinho lá dentro: o alto branco e limpo do gorro do vendedor, tigelas de sorvete, refrigeradores de latão soltando vapor, tanques comprimidos de xarope de refrigerante, serpentes de mangueira de refrigerante, gordas caixas de pipoca salgada mantida quente ao sol. Agora que está em cima dá para ver a coisa toda.

O vento sopra. Quanto mais alto, mais venta. O vento é fraco: na sombra ele é frio em sua pele molhada. Na escada na sombra sua pele parece muito branca. O vento assobia fininho em seus ouvidos. Mais quatro degraus até o alto da torre. Os degraus machucam seus pés. São finos e você sabe bem quanto pesa. Você pesa de verdade na escada. O chão quer você de volta.

Agora você vê por cima do alto da escada. Pode ver a prancha. A mulher está lá. Ela tem dois montinhos de calosidade vermelha, de aparência dolorida, na parte de trás dos tornozelos. Está parada no começo da prancha e seus olhos nos tornozelos dela. Agora você está acima da sombra da torre. O homem sólido abaixo de você está olhando pelos degraus para o espaço contido por onde a queda da mulher passará.

Ela faz uma pausa de uma pulsação. Não há nada de lento naquilo. Deixa você frio. Num segundo ela está na ponta da prancha, sobe, baixa nela, a prancha se curva como se não quisesse a mulher. Depois se movimenta, volta e a joga violentamente para cima e para fora, os braços dela se abrindo para englobar aquele círculo e foi-se. Ela desaparece em uma piscada escura. E agora um tempo até você ouvir o impacto lá embaixo.

Escute. Não parece bom, o jeito como ela desaparece num tempo que passa antes de ela soar. Como uma pedra caindo num poço. Mas você pensa que ela não achou isso. Ela era parte de um ritmo que exclui o pensamento. E agora você fez de você mesmo parte disso também. O ritmo parece cego. Como formigas. Como uma máquina.

Você conclui que precisa pensar a respeito disso. Afinal, tudo bem fazer uma coisa apavorante sem pensar, mas não quando o apavorante é o não pensar em si. Não quando o não pensar se revela errado. Em algum ponto o erro foi se acumulando cego: tédio fingido, peso, degraus finos, pés doendo, espaço cortado em partes escalonadas que só se fundem em um desaparecimento que leva tempo. O vento na escada algo que ninguém poderia esperar. O jeito como a prancha se projeta da sombra para a luz e não dá para ver além da ponta. Quando tudo acaba sendo diferente você devia pensar. Devia ser exigido. 

A escada está cheia abaixo de você. Empilhados, todos separados por alguns degraus. A escada é alimentada pela sólida fila que se estende para trás e curva-se no escuro da sombra em ângulo da torre. As pessoas estão de braços cruzados na fila. Os que estão na escada sentem dor nos pés e estão todos olhando para cima. É uma máquina que só anda para a frente.

Suba para a língua da torre. A prancha se revela longa. Tão longa quanto o tempo que você fica ali parado. O tempo ralenta. Engrossa em torno de você enquanto seu coração aumenta mais e mais as batidas a cada segundo, a cada movimento do sistema da piscina lá embaixo.

A prancha é longa. De onde você está ela parece estender-se para o nada. Vai jogar você em algum lugar que a própria extensão dela o impede de ver, que parece errado aceitar sem sequer pensar.

Olhada por outro lado, a mesma prancha é só uma coisa fina e chata coberta com um negócio plástico branco e áspero. A superfície branca é muito áspera, pintalgada, contornada por um pálido vermelho aguado que mesmo assim é vermelho e não rosa ainda - gotas de água de piscina velha que captam a luz do sol da tarde acima das montanhas duras. O negócio áspero e branco da prancha está molhado. E frio. Seus pés estão doendo por causa dos degraus finos e têm uma grande capacidade de sentir. Eles sentem seu peso. O começo da prancha tem corrimãos de ambos os lados. Não são como os corrimãos da escada eram há pouco. São grossos e colocados muito baixo, de forma que você tem quase de se curvar para se apoiar neles. Estão ali só para se ver, ninguém se apóia neles. Segurar toma tempo e altera o ritmo da máquina.

É uma prancha comprida, áspera e fria de plástico ou fibra de vidro branca, com veias da cor triste do quase rosa de balas ruins.

Mas no fim da prancha branca, na beirada, onde você vai se abaixar com seu peso para fazer ela jogar você longe, existem duas áreas de escuro. Duas sombras chatas na luz ampla. Dois vagos ovais escuros. O fim da prancha tem duas manchas de sujeira.

De todas as pessoas que foram antes de você. Seus pés quando você pára ali estão macios e marcados, doem por causa da superfície áspera e você vê que as duas manchas escuras são da pele das pessoas. São pele raspada dos pés pela violência com que as pessoas de peso real desaparecem. Mais gente do que se pode contar sem perder a conta. O peso e a abrasão de seu desaparecimento deixam pedacinhos de pés macios para trás, pedacinhos, lascas e flocos de pele que são sujos, escurecem e se bronzeiam ao jazer minúsculos e espalhados ao sol no fim da prancha. Eles se empilham, se espalham, se misturam. Eles escurecem em dois círculos.

Fora de você não passa tempo nenhum. É incrível. O balé da tarde lá embaixo é em câmara lenta, os movimentos lá em cima de mímicos em geléia azul. Se quisesse você podia facilmente ficar ali para sempre, vibrando por dentro tão depressa que flutuaria imóvel no tempo, como uma abelha sobre alguma coisa doce.

Mas deviam limpar a prancha. Qualquer pessoa que pense a respeito por um segundo que seja veria que deviam limpar a pele das pessoas do fim da prancha, os dois acúmulos pretos do que restou do antes, manchas que lá de trás parecem olhos, olhos cegos e vesgos.

Onde você está agora é calmo e quieto. Vento rádio gritos água esguichando aqui não. Sem tempo e sem som real a não ser seu sangue guinchando dentro de sua cabeça.

Lá em cima aqui significa visão e olfato. O cheiro é íntimo, recém-clareado. O cheiro da flor especial de cloro, mas dele outras coisas sobem para você como uma neve semeada de pragas. Você sente cheiro de pipoca amarela. Óleo de bronzear doce como óleo de coco. Ou hot dogs ou salsicha empanada. Um tênue vestígio cruel de Pepsi muito escura em copos de papel. E o cheiro especial de toneladas de água vindo de toneladas de pele, subindo como vapor de um banho novo. Calor animal. Lá de cima é mais real que tudo.

Olhe só. Você pode ver a complicação toda, azul, branca, marrom e branca, mergulhada num brilho aquoso de vermelho profundo. Todo mundo. Isso é o que as pessoas chamam de vista. E você sabia que de baixo você não olharia assim tão alto lá em cima. Você agora vê o quanto você está lá em cima. Você sabia que lá de baixo não dava para dizer.

Ele fala atrás de você, os olhos dele nos seus tornozelos, o homem careca sólido, E aí, menino. Eles querem saber. Seus planos aqui em cima são para o dia inteiro ou qual é exatamente a história. E aí, menino, você está bem.

O tempo existiu esse tempo todo. Não dá para matar o tempo com seu coração. Tudo toma tempo. As abelhas têm de se mexer muito depressa para ficar paradas.

E aí menino ele diz E aí menino você está bem.

Flores de metal se abrem na sua língua. Nenhum tempo mais para pensar. Agora que existe tempo você não tem tempo.

E aí.

Lentamente agora, através de tudo, há um olhar que se espalha como os anéis da água atingida. Olhe como se espalha a partir da escada. Sua irmã avistada e o pacotinho branco dela, apontando. Sua mãe olha o raso onde você costumava ficar, depois faz uma viseira com a mão. A baleia se mexe e se sacode. O guarda olha para cima, a menina em volta da perna dele olha para cima, ele pega o megafone.

Para sempre lá embaixo é o deque áspero, salgadinhos, música metálica fina, lá embaixo onde você costumava ficar; a fila é sólida e não tem marcha a ré; e a água, claro, só é macia quando você está dentro dela. Olhe para baixo. Agora ela se mexe ao sol, cheia de duras moedas de luz que brilham vermelhas enquanto somem em uma névoa que é seu próprio sal doce. As moedas racham em luas novas, lascas de luz compridas dos corações de estrelas tristes. O tanque quadrado é um frio lençol azul. Frio é só uma espécie de duro. Uma espécie de cego. Você foi apanhado desprevenido. Feliz aniversário. Você pensou melhor. Sim e não. E aí menino.

Duas manchas pretas, violência, e desaparece em um poço de tempo. Altura não é o problema. Tudo muda quando você volta para baixo. Quando você bate, com seu peso.

Então qual é a mentira? Dura ou mole? Silêncio ou tempo?

A mentira é que é uma ou outra. Uma abelha parada, flutuando, está se mexendo mais depressa do que se pode pensar. Lá de cima a doçura a deixa louca.

A prancha vai abaixar, você irá, olhos de pele podem se cruzar cegos para dentro de um céu manchado de nuvens, perfurações de luz se esvaziando por trás da pedra dura para sempre. Isso é para sempre. Pise na pele e desapareça.

Olá. 

 

(*reproduzido de https://www.companhiadasletras.com.br , este conto integra do livro "Breves entrevistas com homens hediondos", tradução de José Rubens Siqueira)

wallace

O estadunidense David Foster Wallace (1962-2008) foi romancista, contista e ensaísta. É considerado um dos mais inventivos e geniais autores da nova prosa americana. Seu estilo é chamado de enciclopédico e sua obra o revela um expert das relações humanas inseridas na época em que vivemos

 

 


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