PROSA POÉTICA

Abra cada cabra*



Os desastres se acumulam e a tragédia desse montante parece não poder estancar a iminência abissal do vazio. São procelas em silêncio onde olhos marejados desejam naufrágio. Dados rolam ao contrário, cartas caem em falso, damas são cavalos, bispos são veados. E meu Amor, esse vício por álcool, que tudo quer, tudo abarca, faz água ao barco. 

Tenho destruído cada conquista, como quem incendeia a cidade depois de a ter tomado. Desertei, dei aos soldados morte sumária. Vi Roma arder após ter partido minha mãe ao meio de alto a baixo. Ri da coroa e com o cetro executei crueldades. Mesmo sem império, um facínora, meio Calígula, um tanto Nero, sem da Cidade Eterna o fausto.

O sadismo dado aos magos, subjugar almas e ser pela própria subjugado. Bruxaria feita ao contrário. Encantar o sempre amaldiçoado. Um ornamento equívoco, um luxo desvairado. Um espetáculo torpe, ilusionismo de senilidades. Abra cada cabra, sangue ao invés de mágica. Dentro da caixa espadas penetram a amada.      

Transtorno de quantas possíveis polaridades, Baudelaire, Verlaine, bouderlaine. Complexos que Electram Édipo ou Portnoy. E a cada cigarro levar a boca um trauma, oral como quem lambe um falo. Esperma ao lábio como lágrima. Freud em pó, absinto e literatura laureada. Eu cultivando mortos. Psicologia moderna para desvairados. 


*Texto enviado pelo autor ao tyrannus

rafaela hoffmann

GLAUBER

Glauber Lauria nasceu em Torixoréu (MT) em 1982. Publicou de modo independente o livro de poemas "Jardim das Rosas em Caos". Já saiu nos periódicos Fagulha, Sina, Acre, Expresso Araguaia, AMEOPOEMA, etc. Cursa Dramaturgia na MT Escola de Teatro e escreve para o site Cidadão Cultura

 


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