PROSA

Toada do Esquecido (trechinho)*



O vento passeia por entre os altos arvoredos daquele oásis de mato no meio da desolação. Ouvem-se sons de estranhos pássaros que só saem com a noite, atravessam o ar por cima da cabeça deles. Morcegos, suindaras.

Todo o bosque se move com a doce amplidão de uma espécie de saudade noturna, uma espécie de felicidade oculta que só sabem conceder as grandes árvores centenárias que escaparam à morte e à devastação. Como que um bafo catingoso de resinas odorantes e de perfumes agrestes bate na cara deles, invade seus pulmões, vindo da noite mais profunda e mais original: de onde virá, onde será essa noite vaticinadora e profética?

O rio corre, e eles tentam decifrar o enigma do seu correr, do idioma que forma sua voz de águas sempre correndo, atravessando a noite, atravessando a eternidade. Doce amplidão das árvores, doce amplidão das noites, doce amplidão das águas... Como que vozes dos antepassados mortos. Vozes dos que não voltam mais: e quem são eles na sua oclusão de silêncio e melancolia que toma todos os viajores cujo destino está escrito somente nas grandes e frondosas  mãos de Deus Onipotente? Daqui não dá para ver os horizontes... As árvores impedem de ver o céu... A vida passa e parece não deixar rastros neste areial chamado destino... 


*Reproduzido do livro "Toada do Esquecido & Sinfonia Equestre" (Cathedral Publicações / Carlini & Caniato)

marcos vergueiro

dicke

Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), grande escritor de Mato Grosso, que se mandou há 11 anos, completados nesta terça (09/07)

 


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