RESENHA

O estranho vírus de Eduardo Mahon



No dia 12 de abril, o ficcionista e crítico literário Eduardo Mahon lançará, pela editora Carlini & Caniato, os cinco títulos que compõem a coleção Contos Estranhos: os contos mais extensos "Galileu Dançou por Muito Menos", "Inclassificáveis" e "Paraíso em Fuga", uma antologia de contos publicados anteriormente, sob o título de "Resumo da Ópera", e o livro de contos curtos "O Vírus do Ipiranga", objeto desta resenha. Em fase de incessante produção literária, o autor tem se mostrado cada vez mais seguro no domínio das técnicas da narrativa breve. Se os contos de "Resumo da Ópera" arrebatam o leitor pela riqueza metafórica das imagens de seu realismo mágico e pelos desfechos inusitados, as narrativas de "O Vírus do Ipiranga" transitam entre este mesmo realismo e a crítica de costumes, sem a veemência (ou o dogmatismo, se quisermos) de uma vertente nova da literatura engajada. O narrador de Mahon (pois parece que há uma única voz narrativa que observa e registra as várias situações vividas num mesmo espaço) mantém uma impassível distância daquilo que relata, elemento necessário à sátira, assim como o tom coloquial e despojado, objetivando, contudo, um efeito que choca ou surpreende. 

Salvo engano, a pandemia de COVID-19 teve um impacto mais evidente – no sentido de provocar reflexões que culminem em criações artísticas – no campo das artes plásticas e visuais, assim como na música. Talvez a prosa literária demore um pouco mais a reagir inventivamente ao novo estado de coisas advindo da experiência de isolamento social. Mahon é um dos poucos autores a nos fornecer, até o momento, um mosaico de situações imaginadas a partir deste contexto. Quinze narrativas são apresentadas, tendo como espaço comum o bairro do Ipiranga. Aliás, “o vírus do Ipiranga” funciona como uma espécie de corruptela da primeira parte do verso que abre o Hino Nacional Brasileiro, já incorporada à cultura popular, mas que, no livro, prepara o leitor, logo de início, para o tom satírico que predomina nas narrativas, uma possível sugestão de que alguma coisa esteja contaminando, corroendo a aparente solidez daquela ordem instituída ‘pelo brado retumbante de um povo heroico’. 

A longa tradição literária que relaciona peste e literatura tem possivelmente como um de seus pontos culminantes o "Decameron" de Giovanni Boccaccio, mas remonta a períodos anteriores ao autor italiano. De todo modo, tal relação frequentemente propicia o contraste entre concepções de mundo diversas ou o desmascaramento de determinadas práticas sociais, este também fundamentado sobre o contraste entre aparência versus realidade. Em Boccaccio, a ameaça da peste ajuda a compor a moldura narrativa, como o evento que fustiga os(as) jovens aristocratas a procurarem uma nova forma de convívio social, num espaço que se situa acima da cidade que agoniza. Nesta nova forma de vida, que resiste e supera a morte que assola a Florença medieval e que parece prenunciar o esplendor renascentista, são inseridas as célebres cem novelas, em que o humor prevalece. Como toda grande obra, o "Decameron" possibilita várias leituras. Porém, parece-me evidente o contraste entre um mundo que morre (os valores e costumes que lhe dão base) e outro mundo que dele renasce. Ao longo dos últimos séculos, outros autores se defrontaram com o tema de diferentes maneiras, o que não é possível ilustrar aqui. Contudo, cremos que, em todos eles, a ideia de contraste está presente. 

Em Mahon, o contexto pandêmico serve como pano de fundo dos contos e, a partir dele, os modos de ser e as convenções sociais da pequena classe média urbana brasileira passam pelo escrutínio impiedoso do narrador. Uma das ironias do livro reside no fato de as personagens, no momento em que se veem obrigadas a usar máscaras de prevenção contra a doença, acabarem sendo elas mesmas, assim como suas relações sociais e afetivas, desmascaradas, como acontece justamente no conto “Máscaras”, em que, num supermercado, a esposa perde-se de seu marido sem saber, confunde-o com outro mascarado e com ele vai para casa: “Chegaram finalmente. Subiram o elevador, ambos de máscara, regras da autoridade condominial. Ele mirava o chão enquanto ela apertou o botão do 6º andar. Entraram no apartamento e, somente depois de retirarem as máscaras do rosto, perceberam que não eram quem esperavam que fossem”. 

mahon

Eduardo Mahon é um dos autores mais profícuos de Mato Grosso, com inúmeras obras já publicadas em prosa (contos e romances) e verso. Desenvolve uma expressiva trajetória acadêmica e suas criações e pesquisas têm interagido com artes como teatro e cinema. Mahon também precisa ser citado como um dos principais articuladores da literatura mato-grossense. É criador e editor da Revista Pixé

Em “Boa Noite”, temos o caso do motorista de ônibus que, num gesto de “patriotismo contagioso” - sinal de que a praga que se alastra também tem uma ressonância política –, como forma de contestar e infringir as medidas preventivas e os decretos oficiais da quarentena, “usou uma camiseta da seleção brasileira e fez questão de tirar a máscara e saudar os passageiros, sublinhando que todos eram essenciais para o país”. 

Há também o caso em que tirar a máscara, ou “enfiá-la no bolso do short” para dar início a uma caminhada, possibilita uma reflexão sobre a vida, dando lugar a uma narrativa de cunho mais existencial, como em “As Voltas do Tempo”, em que a personagem consegue ver-se desde seu passado mais remoto à sua velhice, podendo, no fim, ‘acertar as contas’ com o que vive e o que é no presente. Neste caso, assim como em outros contos, como “Cúmplices” e “Bem-Vindo”, a presença mais acentuada do realismo maravilhoso tende a conferir às narrativas algo que extrapola a mera crítica de costumes (ainda que não deixe de sê-lo), ao mimetizar os sonhos e os anseios de uma pequena burguesia por melhores condições materiais de vida. As personagens terminam por perder-se neste mundo onírico? Seria isto, ou uma leitura diversa também é possível? Creio que sim, e talvez seja mais interessante seguir numa outra direção. Tais contos podem ser lidos como um contraste entre a estreiteza espiritual e a frustração em que vivem algumas personagens e a forma como ostentam uma vida de relativo luxo, numa hábil manipulação, por parte do autor, da temática da “aparência x realidade”. Com o advento da pandemia, as personagens tomam consciência do que realmente são, e é a vida a que estavam acostumadas a viver o que lhes acaba surpreendendo. Em “Bem-Vindo”, Moacir passa a ter plena consciência de seu fracasso pessoal ao fazer uma compra de supermercado: “Moravam juntos na casa do Ipiranga: ele, a mulher, a sogra e a filha adolescente, mantendo ali um relacionamento tempestuoso onde sua tradicional posição de chefe de família era subjugada pela maioria feminina. Moacir não tinha direito de assistir ao futebol na televisão da sala, […] não levava os amigos do escritório para um banho de piscina, […] abriu mão do churrasco de fim de semana porque a filha tornara-se vegetariana”. No retorno à casa, tudo o que é e tudo o que possui passam a ser percebidos sob uma nova luz.

O livro conclui-se com “Faxina Completa”, conto que se difere não só por ser bem mais extenso que os demais, como também por sua estrutura. O autor faz uma curiosa apresentação das personagens e de suas ações na narrativa, algo que se coloca entre a didascália do texto dramático e a ficha policial. As personagens são reiteradamente apresentadas pelos seus papéis sociais e por determinadas características (como idade, cor, constituição física, etc.) que acabam frustrando, ao longo do relato, as ideias preconcebidas que tais retratos redutores costumam gerar. Este é um caso em que resumir o enredo acaba por simplificar demais o alcance de sentidos que a narrativa proporciona. Mas vale dizer que, em consonância com os contos que o precedem, mantém-se o olhar distanciado e frio do autor satírico, assim como a crítica cortante da sociedade contemporânea. No fim, ninguém se salva, seja “Paulo Renato, 36, branco, magro, pós-graduado, cirurgião-dentista”, seja “Maria José, preta, gorda, analfabeta, empregada doméstica”, ou “Doutor Felipe, 32, branco, solteiro, defensor público”. 

Mahon não é adepto das utopias. Ao contrário daqueles que acreditam ser possível extrairmos lições da experiência trágica deste momento pandêmico e criarmos formas novas e melhores de convívio social, ele prefere expor, diante da praga que se difunde e ameaça, a hipocrisia das convenções sociais, a intolerância ao modo de vida alheio que, ironicamente, se agrava na situação de isolamento e, por fim, a consciência crua que suas personagens passam a ter de si mesmas, ao se defrontarem com o espelho de suas aparências. 

helvio

Helvio Moraes é professor de literatura na Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT, mestre e doutor em Estudos Literários, pela Unicamp, estudioso de Música Popular Brasileira e compositor. A partir deste ano tem colaborado com o tyrannus

 


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