CRÔNICA

A máscara do meu rosto*



Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela é a ponte que cruzo para alcançar os demais seres.

Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.

Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade.  E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.

Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.

As máscaras que levo pelas manhãs coladas à pele têm recursos múltiplos. Fogem ao meu controle. Fazem-se de gestos, do franzir da testa, das rugas em torno dos olhos, dos sulcos próximos à comissura dos lábios.

Integram um sistema que esconde e revela ao mesmo tempo quem sou. Desgovernada, inescrupulosa, cheia de razão e de fúria, padecendo, como os demais, da enfermidade dos sentimentos. E que embora esteja sob a guarda das máscaras, não está a salvo dos que nos observam com luneta. Donos de um olhar que semeia, a respeito de quem seja, uma versão contrária à que queríamos.

As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?

Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?


*Crônica publicada no jornal OESP, Suplemento Feminino, em 1997. Reproduzida do site http://lenidavid.hospedagemdesites.ws/

divulgação

nelida

Nélida Piñon nasceu no Rio de Janeiro. Ela é formada em jornalismo pela PUC-RJ e já foi editora e/ou membro de conselho editorial de inúmeras revistas do Brasil e de outros países. Integra - e já presidiu, a Academia Brasileira de Letras. Tem cerca de 30 obras publicadas, entre romances, contos, crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil. Já recebeu ou foi indicada para mais de 20 premiações de destaque. Entre os galardões mais importantes que venceu estão o Jabuti (2005 e 2020), o da Associação Paulista de Críticos de Arte (1972 e 1984), o Prêmio Príncipe de Astúrias (2005) e o Casa de las Américas (2010)



 

 

 


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