PROSA

Morte em Pleno Verão e Lá é Sempre Verão*



Do Baixo Xingu se cai fluidinho no Baixo Amazonas…

Do alto da proa, o mais rico olha o entra e sai de fuzileiros navais. Documento, por favor. Documento, por favor. Documento, por favor. Multiplique as palavras anteriores, burocraticamente, por sete ou oito, por favor. Por último: atestado de óbito, por favor.

Um dos fuzileiros repara na linha-d’água. O barco está um pouco mais pesado do que deveria, segundo a papelada e o bom senso, mas aí se lembra do encontro: e, assim que bate a libido, ele se apressa em liberar a embarcação. Foi um tal de update em busca de um date que a soberania do Brasil acabará comprometida. Ele é o mais disciplinado da tropa, medalhudo e tudo, mas não transa desde o início da cheia. É a última inspeção até Parintins.

Não é veleiro. É velório. Brinca um dos tios.

Rio.

O mais rico deles alugou o barco, após pechinchar muito, para o transporte do corpo da avó de alguns, mãe de outros e matriarca de todos. Ela insistiu antes de morrer: não queria, de jeito algum, voltar pra Parintins de avião. Afinal, mesmo morta, essa seria a sua última viagem pelo rio Amazonas (filho de muitos, pai de muitos mais).

É noite. Eles só irão chegar com mainha de manhãzinha. Quem consegue, dorme. Quem consome, bebe. O mais rico, que bebe e fuma, tripudia todos os tipos de sobrinhos disponíveis; o concurseiro, o maconheiro e o que foi ao banheiro.

O barco para. O retrato que decora o caixão tomba com a ondulação. O capitão da embarcação, agora à deriva, avisa que o restante da tripulação está empenhada em consertar o motor. Não. Não há motivo algum pra alarde. Alguém ouve alarme.

Rio.

O concurseiro que, no entanto, é a favor de privatizar tudo, repara no letreiro que revela o número de tripulantes: dois. O capitão, mais alguém que ele ainda não viu e é só. Essa é a tripulação empenhada em reviver o barco. O sobrinho que tinha ido ao banheiro olha na mesma direção e, por precaução, anota o número da capitania dos portos.

O mais rico vê se o número de passageiros equivale aos daqueles laranjas que, em tese, salvam vidas. Não equivale. Ele guarda a informação e senta em um dos tronos para o caso disso que vocês estão pensando ser necessário. Mas ainda é cedo para o desespero. Joga o charuto na estrada fluvial e procura o capitão longe do leme, enfiado numa cova que guarda o morto motor. O capitão se levanta e projeta o corpo pra fora do alçapão, revelando testa como extensão da careca, ambas sujas de graxa, e escuta:

— Não podemos perdê a carga, pô.

— Carga?

— Caixão, cacete!

— Tá tudo bem, maninho.

É quando a tia de alguns e filha de uma acorda com o balanço apenas para voltar a dormir.

A vó, do alto do barco, diz que o retrato caído não faz jus, o caixão é de segunda e mergulha em um ângulo familiar no Amazonas.

A tia acorda. Conta primeiro e depois interpreta o sonho: a mãe qué fica no rio e se for preciso leva todo mundo junto, manos. Sonho é sério. Pra ela é sim. Somos feitos da mesma matéria dos sonhos, escreveu um parente antigo de longe. De uma ilha que não é a de Parintins. Porque parente a gente também escolhe.

Rio nervoso.

Chove. Venta. Uiva. O inanimado, vazio de intenções, ataca.

— Precisa diminuí.

O capitão repete que sim, falo sério, precisa diminuir o peso. A tia reconta o sonho e sugere que o caixão seja lançado ao rio. A mãe ama o rio, sempre foi mais da água que da terra... O maconheiro concorda que a vó gostaria de ficar no rio e que até seria uma cerimônia mais bonita que um enterro... O capitão pede calma e diz que isso apenas em último caso. Pois existem leis, bem sérias, sobre largar caixões, ainda mais em uso, por aí.

O mais rico deles grita que isso é loucura, que pensar isso é um insulto ao nome da família, fala da memória de mamãe, que mamãe quer sim ser enterrada em Parintins, que mamãe não quer ser jogada no rio, que isso é egoísmo deles, que vergonha, que, que, que é uma indecência e que jamais, nunca, aceitaria que…

— Mas, mano, pensa na mãe, o rio parece chamá-la.

Do fundo do ninho das palavras, encharcado pelo álcool, ele manda todos calarem o bico e diz que o túmulo da família a aguarda, que nem deveriam cogitar isso e que...

O capitão, no momento mais transfigurado da madrugada, dá uma ordem e malas, coisas da cozinha e das cabines começam a chover ao encontro do rio. O peso diminui, mas pouco. É insuficiente. O capitão não entende como diabos ainda tá tão pesado. Pensa se isso não seria algum tipo de culpa cósmica, da grossa, daquela família... Todas têm, mas… Dispensa. Não é fácil dispensar. Porém, a urgência o obriga. A capitania dos portos, antes avisada, agora é alertada.

— Talvez a gente precise… Vamos ver, maninhos.

Todos entendem. O mais rico se desespera, demonstrando um apego inédito ao corpo agora inerte. Os outros já estão resignados ou até animados com a possibilidade da vó ficar e se unir ao Amazonas. Todos sabiam do seu amor pelo rio. Mergulhá-lá ali não seria mais próximo do seu desejo do que sepultá-lá lá?

A tia jura ter visto um “sumidouro”. O rio tá bravo, vai levá-la, manos. Um dos sobrinhos, o que tinha ido ao banheiro muito antes, repete a frase de um filme: vamos precisar de um barco maior. Alguém? Não? Bom, paciência, ninguém entendeu a referência.

O capitão pergunta se é sério se… Viu mesmo um redemoinho? Sim. Mas não deveria existir algo do tipo, não naquela área. Talvez, pensa escondido, ele, afinal, seja o problema, carregue algum tipo de maldição. Quase todo barco no qual o capitão entra vai a pique. Daí os seus preços irresistíveis, de desconfiar, é claro. Dez anos antes: o maior já sob o seu comando foi tragado, em segundos, pelo rio Solimões, matando dezenas. Pois no fundo dos rios, além de ancestrais, têm ralos.

— E é por isso que não deixam a gente enterrá nossos mortos onde quisé.

Nem todos ouviram e alguém pede que repita. É simples, recomeça. Não é por questões sanitárias, pelo diabo ou sei lá o quê. Não deixam a gente enterrá os mortos em nosso quintal ou onde a gente quisé porque vira um local sagrado e você não pode construir um prédio ou um posto de gasolina num lugar sagrado. E, se todo lugar é sagrado, acabou a mamata da especulação imobiliária, do lucro acima de tudo, manos.

— Loucos! Pó, pô! Num é do pó ao pó, pombas? A mãe quer ser enterrada, manos! Como é que... Último desejo, pô! Não vale nada? Ela não qué o fundo do rio! Seus, seus...

Sua sobrinha, que ainda não tinha entrado na história, do Movimento Feminista Amazonas, encerra o surto antes mesmo que ele possa… Quer ir no lugar da vó?! O tio olha a enormidade que o engloba e engole o choro.

Rio sereno.

A vó veio ao fundo. E como afundou rápido, nota o capitão. O mais rico perdeu a carga tão amada. Olha do alto da proa e pensa, por um instante, em se jogar. Um caixão recheadinho de cocaína…

Ele agora chora não consegue mais engolir não dá pra segurar não tem como não mesmo é forte demais para que ele consiga dar conta, senhores.

Pastores, de norte a sul do país, chamam a cocaína de demônio ralado. Para conhecimento. A droga logo se dilui. Imiscui em mim. Não é como o pó de yãkoana. Não. Esse acelerador de partículas é bem distinto.

Rio.

Deságuo de tanto Rio.

 

*Conto do livro "Quando Perdemos o Norte", de Leonardo Gomes Nogueira, vencedor do concurso promovido pela Biblioteca Pública do Paraná e disponível gratuitamente em e-book. Reproduzido do site https://www.bpp.pr.gov.br/ 

leonardo nogueira

Leonardo Gomes Nogueira nasceu em 1979, em São Paulo (SP). É graduado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Já teve uma peça e contos publicados em coletâneas. Em 2019, foi um dos escritores selecionados para participar do Curso Livre de Preparação do Escritor (Clipe) do Centro de Apoio ao Escritor da Casa das Rosas


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