LETRAS DELAS

Mas que Nojo é esse!



Mato Grosso marcou presença na final do Prêmio Jabuti, categoria contos. “Passagem Estreita”, de Divanize Carbonieri esteve lado a lado de grandes nomes do gênero e demarcou o território da disputa. Autora de poemas, teve a estreia em prosa bem recebida pelos pares, chegando também à final do Prêmio Guarulhos. Prestes a se lançar nos gêneros infanto-juvenil e infantil, a diva das letras apresenta sua nova aposta no terreno da prosa: “Nojo”.

Ao se observar a ficha catalográfica depara-se com o registro de contos; mesmo antes de ler não me sinto a vontade com a classificação, embora não a trate por mero desvio analítico, opção estética, cálculo em que o diferencial me pareça outro. A obra tem início e fim marcados por iniciais minúsculas, sem ponto ou vírgula que separe as vozes que vomitam insatisfações. 

Para quem se debruça na aventura de estudar a prosa de Carbonieri, adianto alguns procedimentos que talvez remetam ao livro anterior. Estreita mesmo é a visão que tenho da linguagem, desta vez um misto de oralidade vulcânica e ostracismo conferencista. Percebo uma mescla de devaneios literáticos que recortam o jorro escatológico da narrativa. As vozes sobrepostas parecem querer se auto justificar perante o tecido enredado.

Não há meios de se discutir o tema, se não acoplado a determinada linha teórica, o que faz do embate ornamento retórico que planifica e estratifica o teor da denúncia. “Nojo” percorre o itinerário de gênero (feminino) reformula o gênero (textual) e generaliza procedimentos que fazem da escrita praticada por mulheres um prolongamento do corpo. E não vai aqui nenhuma crítica ou reducionismo ao texto.

Por vezes penso no leitor que estende o braço a esta obra e se encontra em algum aspecto representado. Não seria esse o mais importante virtuosismo de uma narrativa? Se a poesia de Divanize ostenta lugar para os mais altos conhecimentos do rigor poético e de um vocabulário sistematizado organicamente dentro dos padrões da alta cultura, a prosa vai no sentido in-verso. E o leitor, talvez mais ainda a leitora, possa transigir com maior abertura o campo conceitual. 

Pontuando a inventividade de Sterne na obra de ficção, “a narrativa de vanguarda muitas vezes tentou não só frustrar nossas expectativas enquanto leitores, como ainda criar leitores que esperam ter inteira liberdade de escolha em relação ao livro que estão lendo”. (ECO, 2019, p. 14). E os inusitados do cotidiano vão colorindo a mente do leitor que passeia os olhos pelas páginas impregnadas de relativa autocomiseração:

“quando eu vejo tá lá sempre um homem olhando pra minha bunda me dá vontade de sumir queria tanto ser reta coisa mais chique é ser magra e reta como uma régua mulher intelectual é assim curva é coisa de mulher burra” (CARBONIERI, 2020, p. 27).  Discussões de e a partir do corpo costuram a obra toda. A performatização do objeto “ele que vibra em mim, uma presença que chega à opressão. O corpo é o peso sentido na experiência que faço dos textos” (ZUMTHOR, 2018, p. 25).

De olhos e ouvidos atentos ao que se passa na literatura escrita por mulheres, muitas pesquisadoras têm produzido reflexões que transversalizam as personagens que ora surgem. “Por isso é importante, mais uma vez, colocar a questão da historicidade e destacar uma linhagem de mulheres que escreveram, como construíram suas personagens e suas intrigas”. (FIGUEIREDO, 2020, p. 93).  

E nesse esteio Eurídice Figueiredo contrapõe a estética de Virginia Wolf ao conjunto das escritoras da atualidade que, em seu modo de ver “estão abordando temas tabus como o incesto, o estupro, o erotismo, a lesbianidade, o aborto, a anorexia, a bulimia, a automutilação, a amamentação, a menstruação, a TPM, ou seja, assuntos cujo foco é o corpo”. (FIGUEIREDO, 2020, p. 93). Finalizo com o poema MULHER, do livro “Entraves”, estreia de Divanize nas letras literárias, em 2017. De lá para cá (e nem faz tanto tempo assim), o corpo de texto ganhou novos contornos...

Mulher é o não / faça / não seja / mulher é o menos / a miração / pão amargo / o signo / malsão / mulher é a lei / a amarra / maleita / desfeita / desdita / mulher é a moenda / moage / viragem / virago / algoz / mulher é a trava / ataviada / travestida / avestruz / atroz

 

REFERÊNCIAS 

CARBONIERI, Divanize. Entraves. Cuiabá: Carlini & Caniato, 2017.
CARBONIERI, Divanize. NOJO. Cuiabá: Carlini & Caniato, 2020. 
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. 14 reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 
FIGUEIREDO, Eurídice. Por uma crítica feminista. Leituras transversais de escritoras brasileiras. Porto Alegre: Zouk, 2020. 
ZUMTHOR, Paul. Performance, Recepção, Leitura. São Paulo: UBU, 2018. 

 

*Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde escreve sobre literaturas escritas por mulheres

diva

Divanize Carbonieri nasceu em Sorocaba (SP), mas está radicada em Cuiabá desde 2011. Ela é doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia "Entraves" (Carlini & Caniato, 2017), "Grande depósito de bugigangas" (Carlini & Caniato, 2018), "A ossatura do rinoceronte" (Patuá, 2020), e "Furagem" (Carlini & Caniato, 2020), além da coletânea de contos "Passagem estreita" (Carlini & Caniato, 2019). Sua mais recente obra, "Nojo", foi objeto deste texto de Luiz Renato Souza Pinto

 

 

 

 

 


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