PROSA

Conversação e peixada*



"Numa palestra ou debate, se você estiver na mesa e vir alguém se mexendo muito na plate, não se preocupe. Essa pessoa deve estar gostando e procura um jeito mais acomodado pra te ouvir melhor. Se tiver alguém olhando muito no relógio, é porque essa pessoa está gostando e então acha que o tempo está passando rápido demais. Agora, se alguém se levantar e sair antes de terminar, é a sua glória... Pode ter certeza de que essa pessoa foi lá fora pra trazer mais gente pra ver você falar."

A pérola acima foi relatada pelo impagável Ignácio de Loyola Brandão, escritor que veio a Cuiabá participar de debate juntamente com o chargista Paulo Caruso. Dois pesos pesados da comunicação e das artes brasileiras que aqui estiveram, coligando numa das atividades do Circuito Cultural Banco do Brasil Itinerante. 

O tema era em torno de um debate sobre a crônica brasileira, passando pelo jornalismo, o humor e a literatura. E no meio dos dois, espremido diante da grandeza dos caras, este humilde jornalista. Fui o mediador de um debate que esteve longe de ser acirrado ou disputado. Mas isso não tem a menor importância. Valeu muito mais o volume e a importância das informações que rolaram durante duas horas de conversação diante de uma plateia composta, em sua maioria, por estudantes universitários ou jovens jornalistas. Pouco mais do que cem pessoas. 

Um público pequeno para representar a efervescência cultural cuiabana, porém, significativo, já que ali estavam muitos dos futuros jornalistas que, espero, transitem com liberdade e ousadia pela esfera cultural desta terra que caminha para o seu terceiro século. 

A julgar pelo teor das perguntas que foram feitas quando a coisa se abriu para a plateia, a fila andou e a comunicação mato-grossense, pelo menos um pouquinho, ficou mais apta a trilhar por caminhos mais interessantes. Loyola, escritor premiado e experiente no jornalismo, e Caruso, um dos mais atuantes cartunistas brasileiros, compartilharam com generosidade e bom humor seus conhecimentos. Tudo de maneira bastante informal, como requer uma boa crônica, seja ela visual ou escrita, gostosa de se ler e ver. 

Me impressionou a simplicidade dos dois. A forma como se dispuseram a participar, intensamente, sem senões e restrições, me deixou muito a vontade para exercer uma regra do bom jornalismo: falar pouco ou quase nada, quando se está diante de celebridades que têm e sabem mais o que e do que dizer. 

Fiquei quietinho no meu canto e às vezes tive até vontade de descer da mesa e me posicionar junto à plateia de onde poderia assistir melhor. 

Caruso, quando não estava falando - e foi difícil falar mais diante da propensão ao verbo do Loyola, ficava desenhando o tempo inteiro. Incrível a facilidade do seu traço. Algumas de suas charges, apimentando acontecimentos nacionais e internacionais, foram projetadas num telão. Em linhas gerais, ele também falou da sua carreira e da charge no contexto histórico da comunicação no mundo e no Brasil. 

O escritor de "Zero", "Dentes ao Sol" e "Não Verás País Nenhum", mostrou direitinho como se escreve uma boa crônica. Falou que elas vivem perseguindo-o e estão como que em seus calcanhares e só precisam ser apanhadas e transpostas para o papel. Ficam quase a pedir-lhe que isso aconteça. E ele atende. Disse não saber direito o que é essa tal de inspiração e confessou sua simpatia para com um conceito, segundo o qual, a inspiração, no caso de uma crônica, é o tempo que o cronista tem para fechar o seu texto e enviá-lo aos responsáveis pela publicação. 

Loyola associa a literatura com o prazer. Tanto faz ler ou escrever, segundo ele, o prazer deve lá estar. Aproveitei para indagar-lhe sobre como é essa história de prazer, no caso de um leitor mais mediano, quando se trata das letras que provêm de um escritor mais complexo como James Joyce (autor do gigantesco e moderno "Ulisses"). Acho James Joyce um chato, sentenciou o escritor, mas reconheceu a importância e a contribuição que o irlandês deixou para a literatura mundial moderna. 

Contou até um caso curioso sobre essa polêmica obra, que tem mais de 800 páginas. Uma amiga, escritora, certa vez, pesquisava sobre leitores de "Ulisses" e telefonou-lhe. Ele estava sentado numa cadeira e tinha atrás de si a biblioteca onde lá estava o seu "Ulisses", traduzido por Antonio Houaiss. Rapidamente pegou o livro e disse à escritora que não apenas tinha lido o romance, mas como sabia-o de cor, e só precisava que ela lesse o início de cada página. E assim ela foi fazendo, na medida em que ele completava o início de cada página com o seu restante que lia no seu livro. A brincadeira, logicamente, foi desmascarada pelo próprio Loyola, quando a amiga já se dispunha a ir com uma emissora de televisão à sua casa para documentar a memória prodigiosa do escritor araraquarense. 

Depois da conversação, uma peixada. Findo o debate, hora de encher a pança. Com a gentileza da Peixaria Lélis, para lá rumamos. Pirarucu, pacu, piraputanga (que na verdade eu gostaria de dizer peraputanga), pintado, matrinxã, etc. Loyola, Caruso, Beatriz Gonçalves e Luiz Nunes, estes últimos, produtores do evento; "aloitaram" com gosto com a culinária cuiabana. Cerveja, vinhos, e canjinjin pra encerrar. E muita conversa durante a comilança.

Todos muitos curiosos pra saber mais e mais a respeito das coisas e das gentes de Cuiabá. Ainda bem que eu não estava sozinho pra assuntar tanta coisa. Dois amigos jornalistas me ajudaram: Rodivaldo Ribeiro e Lidiane Barros. 

Enquanto conversa, comida e bebida iam e vinham, Paulo Caruso continuava a despejar seu econômico traço num caderno zero bala que tinha ganhado de Loyola... Tô pra ver alguém gostar tanto assim de desenhar. Ao final da noite, já quase meia noite, quando a carruagem já virava abóbora, eis que Paulo Caruso se predispõe a fazer charges dos garçons, da mulher/caixa e até mesmo do segurança do estabelecimento. E o fez. Fechamos tudo com chave de ouro. Fui dormir feliz da vida, contente mesmo, por ter participado de uma memorável noitada de letras e peixes. É isso.


*Crônica escrita em 2008 pelo redator do tyrannus, dois anos antes do site ser criado, resgatada do mundão virtual

loro caruso miolo

Eu, o lorenzo, no traço de Paulo Caruso, sentado em mesa de famosa peixaria cuiabana. Lógico que imprimi e emoldurei o desenho que está lá "no mamãe", que é papa-banana (natural de Nossa Senhora do Livramento-MT), mas vive a um mundaréu de anos no Rio de Janeiro


Voltar  

Confira também nesta seção:

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet