PROSA

câmera um: entrada social*



 

Parece que pegaram o cara, só pediram pra confirmar que é ele mesmo. Você não me ajuda lá com as câmeras? Tem que pegar as imagens, porque me mandaram uma foto aqui do cara, mas só de olhar assim eu não consigo ter certeza, foi tão rápido, não vi direito. Imagina só falar que é ele e depois não é. Me ajuda lá? Obrigada, é que sozinha eu não sei mexer naquele computador. Chato ficar correndo atrás de resolver isso agora, mas fazer o quê? Acontece. Aqui no bairro agora é assim. E o meu pai, coitado, mora aqui faz quantos anos? Sempre trabalhou, nunca fez nada pra ninguém, e aí vem um vagabundo desses e leva embora o carro. Acho muito humilhante isso, pra gente que é honesto. Depois as pessoas ainda vêm falar que pena de morte não pode por causa disso e desse outro: tem é que matar, mesmo. Desculpa falar assim, mas é que fico tão revoltada. E desculpa incomodar também, sei que você não tem nada a ver com isso. As horas? Não sei bem, umas nove e meia, quem sabe, ou então deixa eu ver aqui: no celular ficou gravado que eu liguei pra polícia às nove e vinte e dois, então deve ter sido um pouco mais cedo, ali pelas nove e dez, nove e quinze. Isso. Vamos ver. Meu pai deve chegar ali daqui a pouco, aí eu chego em seguida e logo depois já aparece o cara, vindo desse lado de cá. Acho que... não, esse carro é outro, e eu não vi aquela Kombi estacionada ali, não. Que estranho. Meu pai devia ter chegado já, mas... não sei. Vai passando devagarinho, daqui a pouco ele aparece. Aquela ali é a dona Eugênia? Que estranho ela chegar só a essa hora, não é oito e meia o horário dela? Ali tá marcando o quê? Nove e quarenta já, não é possível, a ligação foi às nove e vinte e dois, disso eu tenho certeza, será que... volta um pouco, lá pras quinze pras nove, por aí. Mas será que eu demorei tanto assim pra ligar? Nervosa do jeito que eu estava, até pode ser. Vê lá. Dez pras nove, quem é esse sujeito aqui? Morador não deve ser, né, nunca vi, você conhece? Pode até ser o cara, já de tocaia, talvez seja o caso inclusive de olhar as gravações de uns dias pra trás, a gente não sabe como é que essa gente opera, quem sabe ele não estava espreitando por aí faz tempo, estudando os horários dos moradores, e principalmente dos mais velhinhos: gente covarde. Mas ele está fazendo o quê ali parado? Passa um, passa outro, e o sujeito só fazendo que não é com ele. Olha: a Kombi estacionando e nada do meu pai. Que coisa esquisita. O outro carro estacionando também. Deu sinal de luz? Parece que... ele entregou alguma coisa pro sujeito na calçada? O passageiro do carro, eu tive a impressão, um saco de papel marrom, você não viu? Antes de ir embora, o passageiro entregou alguma coisa pro sujeito, sim, está na mão dele, ele está mexendo em alguma coisa, tenho certeza. Se ele virar pra câmera, você vai ver. Pode até ser a arma do crime, se for o mesmo cara. E agora o sujeito entrando na Kombi, será que é mais um cúmplice? Pode ser o motorista, ou: sabe lá o que tem guardado atrás. Ou quem. Bem que podia ter som nessa gravação, né, o que será que os dois estão conversando ali? Coisa boa é que não pode ser. Já pensou se é uma gangue de ladrões de carro? Ou pior: uma gangue de traficantes de droga. Espera, para o vídeo. Ali pela janela da Kombi, consegue ver? Parece uma pessoa amordaçada, você não acha? Volta só um segundinho que vai dar pra ver. Será? Ai, meu Deus; ai, me Deus! É uma pessoa amordaçada, sim! É esse bairro, meu Deus! Esse bairro que já não tem mais jeito, mesmo, vou ter que falar com o meu pai de novo. Perdi a conta de quantas vezes eu disse pra ele que passou da hora de se mudar, mas pensa num homem cabeça dura: não troca nem de canal na televisão, vai trocar de endereço? Ir morar lá em casa ele não quer, né, porque vai incomodar muito, porque não se dá com meu marido, porque isso, porque aquilo, e se a gente sugerir uma dessas casas de repouso, então, ou ele morre ou me manda pra longe: gente dessa geração mais antiga é assim, tem na cabeça uma ideia de asilo como se fosse um lugar muito triste, de abandono, que velho vai pra ser maltratado. Mas essas casas de repouso de hoje em dia são uns resorts cinco estrelas. Tenho uma amiga que convenceu a mãe dela a ir, custou, custou, mas convenceu. Não faz nem seis meses e você precisa escutar as maravilhas que ela conta. Hoje, a qualidade de vida da mãe é de primeiro mundo, parece que rejuvenesceu uns dez, quinze anos. Deixou de lado o andador, voltou a usar só a bengala; fez umas amigas nas aulas de hidroginástica; conversa sem medo sobre o passado; diz até que começou a escrever um livro de memórias! Imagina só! Ela foi embaixatriz, viajou o mundo inteiro, tem com certeza muita história interessante pra contar, e minha amiga sempre dizia pra ela escrever, mas não se animava do jeito que estava antes, achava que ia morrer sem terminar o livro e isso era tudo que ela não queria. Quando ela publicar, vou querer ler. Admiro muito o que ela está fazendo. Eu já tenho a cabeça feita: quando ficar velha, se eu sentir que não dou mais conta das coisas aqui fora, faço minha mala e me mando pra um lugar desses. Já pensou? Atenção médica vinte e quatro horas, academia, alimentação balanceada, gente da mesma idade pra conversar, os remédios sempre na hora certAhh, entendi! Essa câmera: acho que está marcando como se fosse horário de verão. Passa uma hora pra frente, lá pras dez e quinze, mais ou menos. Viu só? Era isso mesmo: olha o carro do meu pai ali, daqui a pouco eu chego pra conversar com ele e... é esse aqui o meliante! Mas é difícil saber, né, olha só a foto que mandaram. Aqui no vídeo a calça parece que é azul, na foto é meio cinza, e tem o tênis também: o tênis é bem diferente. Acho que de parecido, mesmo, só o boné. O boné é igualzinho. Mas não sei não se é o mesmo. Porque no fim das contas é mais fácil o cara se desfazer do boné do que trocar de calça, acho. Bom. De qualquer forma, a imagem está aqui. A gente entrega pra polícia e eles que decidam se é o cara certo, né, eles vão saber melhor.

 

*Reproduzido de https://www.bpp.pr.gov.br/Candido

andré volparo

André Cúnico Volpato é um jovem talento das letras brasileiras contemporâneas. Nasceu em Criciúma (SC), em 1992, mas reside em Curitiba desde 2000. É formado em Comunicação pela UFPR e estudou Comunicação Audiovisual na Universidade de Granada (Espanha). Lançou ano passado seu primeiro romance, "cidademanequim" (Editora Moinhos). Venceu, em 2017, o Prêmio José Luís Peixoto, do município Ponte de Sor (Portugal), com o texto "o corpo persiste"; e em 2018 foi finalista do Prêmio Sesc, com "o horizonte é uma parede", ainda inédito

 

 


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