ENTREVISTA

Animais e Fronteiras, uma pauta urgente



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Para Eveline, o sofrimentos dos animais silvestres está invisiblilizado na sociedade

A jornalista, pesquisadora e professora da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) Eveline Teixeira Baptistella lançou, em 2019, "Animais e Fronteiras – Um estudo sobre as relações entre animais humanos e não humanos", pela Editora Appris. No livro, que é resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 2015, ela relata o desenvolvimento e as conclusões de seus estudos, que tiveram como base observação da forma como homens e animais não humanos se relacionam.

Mais que isso, Eveline percebeu que essa relação depende muito do olhar humano; da forma como as pessoas classificam os animais não humanos no seu universo afetivo e cultural.

O Fauna News entrevistou Eveline, que acaba de concluir seu doutorado no Programa de Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT, e abordamos as dificuldades da realização de pesquisas envolvendo animais fora do universo tradicional das Ciências Biológicas e tratamos da questão do tráfico de fauna e da vida dos silvestres em ambiente urbano. E tudo isso pelo olhar da cultura.

Fauna News – No livro, você relata ter um histórico de envolvimento com a causa animal. Pode detalhar um pouco essa sua trajetória?

Eveline Teixeira Baptistella – Sou da época em que era muito comum colocar cigarro na boca de sapos, amarrar bombinhas no rabo de gatos… A caça também era muito presente na região em que nasci, no interior do Rio de Janeiro. Então, se jogar pedras para espantar meninos que atiravam em passarinhos contar como ativismo, comecei aos oito anos! Fora de brincadeiras, formada em jornalismo, sempre busquei orientar meu trabalho para a produção de pautas na área ambiental. Mas era algo que eu fazia somente dentro da profissão, um trabalho difuso. Em 2007, no entanto, ganhei uma cachorra já adulta, a Maggie, e ela estava muito mal, com doença do carrapato em estágio avançado. Consultei três veterinários e todos disseram que a única saída era sacrificá-la, pois o tratamento não “compensaria”. Era melhor “pegar” outro cachorro. Aquilo me chocou profundamente. A partir daí, comecei a estudar mais sobre maus tratos aos animais e me tornei voluntária em ONGs.

Em 2010, entrei para o Movimento Crueldade Nunca Mais, do qual fui representante em Mato Grosso por dois anos. Ali, comecei a pensar na importância da mobilização em outras frentes, pois os protetores vivem afogados em demandas urgentes, na luta pela sobrevivência das suas entidades. Senti que havia a necessidade de amplificar o debate público sobre a questão. Decidi entrar para a área acadêmica e produzir subsídios para atingir formadores de opinião, políticos, juízes, enfim, pessoas que tinham poder para criar ou estimular políticas públicas e ações em prol dos animais não humanos. Mas um efeito disso foi ter que sair dos movimentos sociais, pois minha orientadora apontou que eu não teria o distanciamento necessário para ser pesquisadora e ativista. Foi uma decisão que me pesou no início, mas que acabei achando positiva. No entanto, eu não vou negar que ainda contribuo com ONGs e eu mesma acabo resgatando animais e buscando lar para eles.

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Duda, cãozinho de estimação que mereceu festa de aniversário

Fauna News – Em algum momento dessa trajetória, você atuou com silvestres?

Eveline Teixeira Baptistella – Os silvestres “entraram” na minha vida quando já era pesquisadora. E eu digo “entraram” porque durante a pesquisa que deu origem ao livro, me deparei com uma infinidade de animais silvestres que se adaptaram à vida no espaço urbano, como um jacaré que frequentava o estacionamento de uma grande instituição para pegar sol e tucanos que fizeram ninho na caixa d´água de um prédio público. Durante o tempo em que fui voluntária de instituições de proteção animal, vi que havia uma consciência sobre a necessidade de ações voltadas para os animais silvestres, mas faltavam tempo, recursos e mão-de-obra para atuar nesse segmento que, inclusive, era atendido por projetos mais estruturados, ligados a universidades e centros de pesquisa.

Fauna News – Na apresentação do livro, você afirma ter sido motivada pela curiosidade de verificar “se estaríamos vivendo uma nova era nas relações entre animais humanos e não humanos.” Essa expectativa confirmou-se?

Eveline Teixeira Baptistella – Minha conclusão no livro é que não. Quando comecei a pesquisa, estávamos vivendo o caso do yorkshire que foi espancado pela tutora, em 2011, as pessoas estavam indo às ruas protestar e as ONGs estavam explorando mais as possibilidades de mobilização a partir das redes sociais. Acho que essa pergunta surgiu de um momento em que havia muito otimismo.

Nesse livro, busquei mapear as relações entre animais humanos e não humanos no contexto urbano e encontrei um cenário ainda muito assimétrico. Aos animais de estimação são concedidos muitos luxos, mas não exatamente direitos, e esse amor pode ser transitório. Por outro lado, quando cães e gatos – os pets por excelência na nossa sociedade – estão em situação de abandono, geralmente são vistos como problemas, ignorados ou, frequentemente, maltratados.

No caso dos silvestres, o sofrimento deles é invisibilizado por meio de um discurso ufanista, de uma falsa harmonia entre espécies. Não há uma reflexão sobre o que levou, por exemplo, um tamanduá-bandeira a procurar comida na área de lazer de um condomínio ou uma jiboia a se abrigar na árvore de um estacionamento. Acho que o respeito e o desrespeito pelos animais não humanos andam juntos ao longo do tempo e o que vai determinar a concessão de direitos a eles é o afeto que despertam nos seres humanos. Assim, animais que conseguem “conquistar” a simpatia dos humanos acabam tendo condições de vida melhores.

Nos últimos anos, vejo que há um questionamento mais forte sobre o especismo na nossa sociedade. O veganismo e o vegetarianismo estão dialogando com novos públicos e a pandemia de Covid-19 está colocando em evidência o preço a se pagar pelo nosso comportamento predatório com outras espécies. Ao mesmo tempo, temos camadas organizadas defendendo a liberação da caça e o mercado da carne se mantém forte. Tento não soar pessimista, mas nessa balança sinto que ainda estamos longe de conceder aos animais direito à vida a partir dos seus valores intrínsecos.

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Tucano que vive em caixa d´água de prédio público de Cuiabá brigando com seu reflexo

Fauna News – Você enfrentou dificuldades para tratar da questão animal dentro das Ciências Humanas no universo da academia?

Eveline Teixeira Baptistella – Com certeza! Já na entrevista para entrar no mestrado em Estudos de Cultura, um professor disse que eu deveria tentar uma vaga num programa de Ecologia. Ainda por cima, sou uma jornalista estudando as relações entre animais humanos e não humanos e era difícil para as pessoas entenderem o que a Comunicação tem a ver com isso – apesar de o jornalismo ambiental ser uma área tão importante e cheia de grandes pensadores no Brasil.

Claro que, para mim, tudo isso vira dado! É muito revelador do lugar atribuído aos outros animais na nossa sociedade. Mas acho que o desafio daquele momento, há dez anos, era pensar nas outras espécies como protagonistas dos estudos de cultura e não apenas como meios para se entender ou definir o humano. Hoje, penso que o movimento mais do que necessário é de integração entre as ciências. Recentemente, entrevistei uma bióloga e ela disse que estava planejando um estudo similar ao meu, mas que o dela seria “científico”. Também é muito comum que as pessoas pensem que eu sou veterinária ou bióloga por causa da minha pesquisa. Me perguntam de tudo, desde recomendação de marca de vermífugo a como atrair passarinhos no quintal. A Biologia e a Ecologia ainda são vistas como o espaço mais reconhecido para trabalhos acerca das outras espécies e os estudos de cultura geralmente têm menos prestígio.

Mas é uma barreira que precisamos romper se quisermos melhorar as condições de vida dos animais, afinal a concessão de direitos e a instituição de políticas de proteção, entre outros tópicos, passam pela questão cultural. A Covid-19 é um grande exemplo, é uma doença derivada de padrões culturais que desconsideram o direito dos animais à vida. Não conseguiremos enfrentar essas zoonoses somente atuando no âmbito da saúde, da Biologia. É preciso pensar nos fatores culturais para pensar em novos modelos, em mudanças efetivas de padrões. Além disso, os animais também têm cultura, isso ficou muito evidente nas pesquisas que fiz durante o doutorado. Será que podemos pensar políticas de proteção sem levar isso em conta?

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Livro pode ser adquirido através do site www.editoraappris.com.br

Fauna News – Me chamou a atenção para o seu conceito de “ponte”. Por meio de pontes construídas entre humanos e não humanos em cada caso (encontro ou circunstância), define-se a forma como o homem vai tratar o animal. Não é determinante o fato de o animal ser doméstico ou selvagem, mas o contexto cultural e de momento influenciam no relacionamento e tratamento a ser dado. Você pode explicar melhor esse conceito e qual foi o processo de construção dele?

Eveline Teixeira Baptistella – O conceito de “ponte” foi se materializando durante a pesquisa. Percebi que a maneira como determinado humano vai tratar um animal está muito relacionada à empatia e ao afeto. Eu defendo que as pessoas se dispõem a proteger e a cuidar de animais pelos quais têm algum tipo de vínculo emocional positivo. É por isso que um mesmo humano chega ao extremo de entrar numa briga para defender o seu cachorro de estimação, mas, ao mesmo tempo, envenena os cães de rua que julga incômodos. Um exemplo é o caso do boi Mansinho, narrado no livro.

Conheci um administrador de fazenda cujo trabalho consistia, basicamente, em “engordar” bois para o abate. Milhares de animais cruzavam o caminho dele cotidianamente. Ele mesmo dizia que eram seres inteligentes, com subjetividade e interesse à vida, mas que era o destino dos animais, não havia muito o que pudesse ser feito. Entretanto, no meio desses bois apareceu um que deu uma lambida nele quando estava jogando comida no cocho. Ele e o boi desenvolveram um vínculo afetivo. O homem chegava a colocar o neto no lombo do animal para passear, tirava fotos com ele, os dois trocavam carinhos.

Esse boi ganhou o nome de Mansinho. Quando ele estava a ponto de ser enviado para o abate, o administrador decidiu comprá-lo, para evitar que ele fosse morto. Ele não conseguiu comprar o animal e demonstrava uma grande tristeza por não ter podido salvar a vida dele. Qual era a diferença entre o Mansinho e todos os outros bois que passavam e passam pela fazenda? O afeto, a amizade que se estabeleceu. Foi criada uma ponte entre esses dois animais: o administrador e o boi. Por ter se tornado amigo do humano, o Mansinho teve seu direito à vida considerado.

Em outro episódio, fui a um cemitério e encontrei um único gato lá dentro. Descobri com os funcionários que o Controle de Zoonoses estava recolhendo os felinos do local. Mas então o que aquele gato, super bem tratado, estava fazendo ali? Um coveiro me explicou que aquele animal era de “estimação”, então, era escondido quando havia fiscalização – é importante lembrar que naquela época Cuiabá não tinha nenhuma política pública de bem estar animal e os bichos que chegavam ao Centro de Controle de Zoonoses eram sacrificados se não aparecessem adotantes dentro de um determinado prazo.

A partir de inúmeros casos como esses, fui elaborando esse conceito, pois a ponte une dois mundos separados e não havia uma uniformidade nos relacionamentos entre humanos e animais, sabe? A maioria dos protetores de animais que eu entrevistei comia carne, por exemplo. Então, eles defendiam as espécies pelas quais desenvolveram vínculo afetivo, com as quais havia uma ponte estabelecida. Mas é importante notar que a construção dessa ponte, muitas vezes, é iniciada pelo animal. Foi o Mansinho lambendo o administrador que deu início ao processo. Foi um cachorro que ajudou a enfrentar uma infância difícil que levou uma pessoa a se tornar protetora – e por isso ela não vê contradição entre proteger cães e se alimentar de bois e porcos. A pessoa vai conceder direitos, atribuir personalidade ao animal que ela ama, que ela gosta, pelo qual sente empatia.

No caso dos silvestres, dentro da pesquisa que desenvolvo agora, vejo que essa ponte, esse elo de afeto, muitas vezes se dá por meio da representação midiática: o humano vai “amar” e querer proteger um animal que conheceu por meio de documentários e com o qual se identificou ou viu motivos para admirar.

Fauna News – Outra questão bastante explorada no livro envolve Ciência e sentimentos. A Ciência totalmente racional e totalmente descolada dos sentimentos humanos foi o paradigma construído que passou a viger na sociedade quando o assunto é a natureza. Tanto que você mostra, no livro, a existência de um esforço para desqualificar trabalhos que tenham algum envolvimento emocional de seus autores. Você pode detalhar como Ciência e sentimentos podem estar atrelados na construção de conhecimentos sobre a natureza e os animais?

Eveline Teixeira Baptistella – Nossa sociedade ainda opera com dicotomias e o sentimento é visto como algo que não é confiável, pois está no domínio de emoções intensas, descontroladas, não calculadas. Já a razão está atrelada a uma noção de objetividade, o que lhe dá credibilidade. A Ciência se apresenta como o domínio da razão e confiamos nela porque seria neutra, objetiva, imparcial, sem contaminação das emoções. Mas o fato é que o cientista não desliga um botão no cérebro quando entra no laboratório ou sai para o campo. Quando alguém escolhe um objeto de pesquisa, por exemplo, não operam só critérios racionais. Quem estuda mamíferos ou tratamento de água orienta seu trabalho também por um gosto pessoal, uma inclinação, um episódio ou uma realidade que lhe marcaram. Na prática, os dois polos não estão desconectados, mas gostamos de pensar que sim. Isso nos dá um sentimento de segurança.

No livro trago o exemplo da Rachel Carson, que foi a primeira voz a nos alertar sobre as consequências do uso de agrotóxicos, ou biocidas, como ela gostava de chamar. O trabalho dela desafiava uma indústria poderosa e buscavam desacreditá-la não apenas por ser mulher, mas também por declarar abertamente seu vínculo emocional com as outras espécies, com a natureza, sua crença no direito que os outros habitantes do planeta têm à vida. Então, os cientistas, tradicionalmente, se colocam como neutros, até para que suas pesquisas sejam vistas como confiáveis. Felizmente – e acho que a Rachel Carson nos abriu caminho para isso – vimos desde o final do século passado uma corrente de pesquisadores que passou a se posicionar, a desafiar práticas cruéis e a defender novas formas de estudar os animais não humanos, sem imposição de sofrimento. Falo mais especificamente da Etologia Cognitiva, que tem nomes fantásticos como o Mark Bekoff, que fala abertamente que ama os animais não humanos e que orienta o seu trabalho de pesquisa para impulsionar os direitos das outras espécies.

O fato de haver um sentimento não determina que a pesquisa não terá qualidade nem confiabilidade, até porque temos metodologias, sistemas de controle. Você já imaginou o quanto de crueldade já foi imposto aos animais apenas por que os sentimentos não eram considerados? Por exemplo, quem tem um cachorro, olha o animal e sabe quando ele está triste. Mas para fins de credibilidade científica eram feitas pesquisas muito cruéis só para provar que animais têm sentimentos. Algo desnecessário, a meu ver, pois basta você conviver com um animal para perceber isso. A Etologia Cognitiva, os estudos animais propõem isso: somos todos animais, podemos inferir conhecimento a partir de observação, convivência, relatos de casos. É um modelo científico construído a partir da constatação de que há algo errado num sistema que provoca tanto sofrimento – e certamente nos poupa de oferecer existências infelizes e miseráveis para animais só para ter algum tipo de comprovação teoricamente “não contaminada”.

No livro, eu constato que as pessoas que protegem animais fazem isso movidas por sentimentos, mas o selo de comprovação científica é indispensável na busca por direitos, nos embates para defesa das outras espécies.

Quando um prefeito, hipoteticamente, decide matar todos os gatos que vivem numa praça, não basta dizer que os felinos têm direito a viver. É preciso apresentar dados científicos que “comprovem” isso. Então sentimentos e discurso científico são articulados na garantia na busca de proteção aos animais. A ciência ainda é o selo de que os animais têm interesse e direito à vida, pois falhamos em reconhecer o valor intrínseco das outras espécies. Creio, no entanto, que estamos passando por uma onda de negação da Ciência e isso tem como efeito barrar esses avanços. É possível que tais modelos passem a ser novamente repudiados.

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Animais silvestres têm o sofrimento invisibilizado por meio de um discurso ufanista, de uma falsa harmonia entre espécies

Fauna News – Entre os métodos utilizados por você na pesquisa, a observação do cotidiano foi fundamental. Sair caminhando pelas ruas de Cuiabá foi a base para encontrar os casos que você cita e analisa. Esse recurso de inspiração etnográfica foi questionado como método de pesquisa? Como você resolveu trabalhar dessa forma?

Evelina Teixeira Baptistella – Olha, foi algo que precisou ser feito com cuidado e rigor, justamente para evitar questionamentos. Eu e minha orientadora discutimos muito como seria feito o trabalho de campo e foi uma construção de cerca de um ano.

Ela é socióloga e trabalha com uma corrente chamada Sociologia do Cotidiano, que busca justamente a análise e reflexão por meio dessa observação da rotina, do que não é questionado por já estar ‘normalizado’. Eu vinha da proposta dos estudos animais, que se ampara muito em relatos de casos, numa abordagem não especista, na admissão de que os animais têm agência. Daí, vimos que as ferramentas da etnografia nos ajudariam a conciliar esses universos teóricos e a produzir dados. Hoje, já existe até uma corrente, chamada Etnografia Multiespécies, que contempla essa maneira de construir conhecimento.

Fauna News – Um capítulo, particularmente, interessa bastante ao Fauna News: O Animal Ostentação. Nele, os silvestres aparecem bastante e você trata da questão da perda de habitat e a adaptabilidade de algumas espécies ao ambiente urbano, da questão do perigo aos humanos como elemento que define se o espécime deve ou não viver, do valor utilitário dos silvestres para definir se eles devem ou não ser conservados e da questão da vaidade de quem quer se aproximar dos selvagens. São visões antropocêntricas.

O que falta para que a população enxergue os animais silvestres como seres que têm o direito de usufruir o planeta e que eles são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas, por exemplo?

Eveline Teixeira Baptistella – Eu nunca deixo de me admirar e me emocionar (coisas que cientista não deve fazer, né?) com esse encontro que eu vivi, com os animais silvestres que estão se adaptando ao espaço urbano para sobreviverem. Eu sempre pergunto às pessoas: “o que você faria se chegasse um dia na sua casa e descobrisse que tudo foi destruído, não apenas seu abrigo, mas também suas fontes de alimento?” A maioria de nós não duraria uma semana. Entretanto, esses animais não humanos persistem, encontram maneiras, se adaptam, vão descobrindo brechas dentro do nosso ambiente, que é totalmente hostil a eles.

Como eu disse, não precisamos de estudos que envolvem privação de liberdade e práticas invasivas para compreender que eles têm o mesmo interesse à vida que nós temos. Eles estão nos dizendo isso todos os dias. O lobo-guará que revira uma lixeira, a onça-pintada que preda um cachorro, a arara-canindé que faz ninho na palmeira de um bar estão, literalmente, falando conosco. Estão nos contando uma história de luta, de resistência. Talvez não estejam nos pedindo socorro, porque isso seria nos manter nessa posição ilusória de superioridade que temos. Mas estão nos pedindo uma trégua.

Só que nós falhamos em ver isso.

Daí vem minha defesa da integração entre os estudos de cultura e outras áreas ligadas à pesquisa sobre animais. Nós não vemos o porquê ainda estamos imersos numa cultura que relativiza o sofrimento das outras espécies. O pior é que quando admitimos que estamos causando mal a seres que têm tanto direito à vida quanto nós, logo recorremos ao que chamo de “gambiarras” mentais. Ou seja, buscamos justificativas para nosso comportamento, quase sempre baseadas no imperativo moral de proteção da nossa própria espécie. Se alguém mata uma onça-pintada é porque ela “ataca” humanos. Se alguém atira numa capivara é porque ela “passa doenças”. Quando tiramos o habitat de um animal, quando provocamos sofrimento a outra espécie, basta recorrer a esse arsenal de justificativas para apaziguar nossa consciência.

Mudar isso passa por uma reforma cultural profunda que eu acredito até que já tenha começado, mas que certamente não será minha geração nem as próximas que verão concluída. No entanto, temos um motor que pode nos obrigar a mudar mais rapidamente: o surgimento cada vez mais frequente de zoonoses ligadas ao comportamento predatório humano, como a Covid-19. Se não mudarmos nossos padrões, é possível que nem haja sociedade humana no futuro. Mais do que nos forçar a olhar para o que realmente representam o desmatamento, a caça, o tráfico, a criação intensiva de animais, a Covid-19 está nos mostrando o preço a pagar pelo modelo de sociedade especista.

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O gato de estimação dos coveiros do Cemitério da Boa Morte

Fauna News – Nesse mesmo capítulo, você faz um paralelo com o movimento “ostentação” do funk. Poderia explicar?

Eveline Teixeira Baptistella – Quando encontrei os animais silvestres no espaço urbano, encontrei também um comportamento humano muito bem delineado: a glamourização da presença dessas espécies na cidade. Naquele momento, vi um paralelo com o funk ostentação, uma corrente na qual os artistas exibem e cantam os signos da riqueza: tênis e roupas caras, joias, carros importados… Os cuiabanos ostentavam a proximidade com os animais silvestres em seu cotidiano, mais marcadamente por meio de vídeos e fotos.

Essa presença é tratada como algo especial, sem que nunca se questione a condição de vida daquele bicho. Ninguém vê, por exemplo, o sofrimento de um tamanduá-bandeira que está percorrendo a calçada de uma avenida, tentando entrar no gramado de um shopping para se alimentar. As situações são tratadas como pitorescas e comprobatórias de uma coexistência harmônica que, na verdade, é ilusória. Aquele animal entrou no espaço urbano por pressões antrópicas.

Fauna News – Essa ostentação também pode ser considerada um dos motores do tráfico de fauna? Afinal, pode ser o motivo para escolher como bicho de estimação um silvestre e não um cão ou gato, espécies já domesticadas.

Eveline Teixeira Baptistella – Com toda certeza. Na pesquisa, identifiquei que as pessoas que se relacionam com animais silvestres são vistas como detentoras de algum tipo de superioridade. O animal “de natureza” não é percebido como um ser que aceita humanos com facilidade. Então, o humano que consegue “conquistá-los” só pode ser alguém especial. Nesse ponto, a mídia e a exploração que algumas celebridades fazem desse tipo de relação também têm peso. As pessoas ditas “comuns” são expostas a um modelo de convivência entre silvestre e humano que é extremamente romantizado.

Ninguém fala sobre asas cortadas ou sobre o que significa um macaco viver de fraldas. Hoje, como estudiosa dessa questão no turismo, vejo muito claramente que é preciso discutir o papel da mídia nessa cadeia criminosa. A quantidade de atrações turísticas baseadas no sofrimento animal que são tratadas de forma glamourizada é assustadora. É um ciclo cruel: vemos produtos audiovisuais e admiramos pessoas que interagem muito de perto com os animais silvestres sem que haja nenhum questionamento moral, ético ou, simplesmente, ecológico. Depois, queremos reproduzir esse modelo. Alguns se satisfazem em tirar uma foto abraçando um filhote de tigre – como mostra o documentário Tiger King. Outros vão chegar a extremos de criar uma naja em casa. O custo para o animal não humano nunca é avaliado.

Fauna News – No capítulo Império Pet, você relata o fenômeno de tratar animais como humanos. Hoje em dia, já não nos causa espanto que cães e gatos vivam no interior das residências, durmam em nossas camas, viajem conosco e sejam chamados de filhos. São parte da família. Apesar de menos comum, há quem faça o mesmo com animais silvestres de algumas espécies, como os papagaios, por exemplo. Você fez alguma avaliação sobre esse fenômeno? Ele não é também o resultado de uma visão antropocêntrica, em que os animais são utilizados para compensar problemas humanos e o bem-estar deles acaba deixado de lado?

Eveline Teixeira Baptistella – Nós temos uma ideia, que é até relativamente recente, de que os animais não humanos pertencem a um universo, enquanto a natureza e nós, a outro, o da cultura. Essa noção se consolidou quando colocamos o domínio das outras espécies como nossa meta enquanto sociedade. Essa racionalidade valida a exploração dos outros animais até hoje. Então, se formos pensar friamente, o ideal seria mesmo uma separação completa.

Nós estamos dizimando os outros animais. Que alternativa existe que não seja cortar toda a convivência e instituir espaços em que eles sejam protegidos? Dito isso, acho que esse trem já partiu. Os animais silvestres já estão entre nós e nesse mesmo quadro de sofrimento extremo estão florescendo amizades e parcerias. Eu tive uma amiga arara-canindé por muitos anos. Eu tinha um pé de cajá-manga e ela vinha no meu quintal todo dia de tarde. Criamos um ritual de brincadeiras e essa ave literalmente me chamava quando eu não estava lá no horário em que chegava. Ela gritava até eu aparecer. Quando eu estava viajando, os vizinhos relatavam que ela ficava um longo tempo vocalizando até desistir. Havia uma relação entre nós, que não era marcada por nenhum tipo de troca além da afetiva. Nós duas gostávamos da companhia uma da outra e aproveitávamos os momentos juntas. Coloco isso tudo pois creio que pode existir convivência entre espécies baseadas não apenas no respeito, mas também no amor. Uma arara pode fazer parte da minha família, da minha rede de afetos e vice-versa.

O problema, talvez, seja o modelo. Quando estabelecemos uma troca emocional com os outros animais, acabamos correndo o risco de impor o nosso modelo. O cachorro não pode ser alguém com quem eu vivo e por quem nutro amor. Eu preciso encaixá-lo no papel de filho. E note que é um papel de filho ideal, que não cresce, que não faz malcriação. Isso nos leva a tirar a animalidade dos bichos, que já não podem latir, se reproduzir, explorar o mundo além dos nossos muros. Daí, vem um labirinto muito intrincado, que eu só posso mencionar, mas para o qual não chego nem a esquadrinhar uma saída.

Ninguém está fazendo isso com o seu cachorro porque o odeia. Pelo contrário. Eu tenho dois cães que considero família. Eu não deixo que saíam na rua por não querer que corram riscos. Mas tenho que reconhecer que, em alguma, medida, estou tirando deles a alegria de correr livremente. As pessoas que entrevistei e que têm um animal silvestre amam aquele ser e eles vivem uma troca de afeto. O problema é que uma parte, o animal não-humano, está tendo todo seu universo de experiência sacrificado em nome daquela relação. E, ao contrário da minha amiga arara, eles não puderam escolher esse relacionamento. Eles foram aprisionados e vendidos, ninguém perguntou se eles querem ser amigos de um humano e muitos sequer tiveram a oportunidade de conhecer a vida em natureza.

Mas para nossa cultura, o modelo de afeto dedicado aos pets é considerado a forma mais extrema de amor que um humano pode dedicar a outro animal, então não se vê mal em dar esse mesmo “amor” ao um animal silvestre. É um padrão social ao qual estamos acomodados e que esconde muitas contradições. Eu me considero parte dele, porque tenho animais de estimação.

cristiano andrade

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Vemos produtos audiovisuais e admiramos pessoas que interagem muito de perto com os animais silvestres sem que haja nenhum questionamento moral, ético ou, simplesmente, ecológico

Fauna News – Completando a questão anterior: esse tipo de comportamento também não está sendo incentivado pelo mercado pet? Interesses comerciais podem estar prejudicando muito os animais e vendendo uma falsa ideia de cuidado com os não humanos.

Eveline Teixeira Baptistella – A estima pelos animais é um setor econômico gigantesco. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação, o segmento faturou R$ 22,3 bilhões somente no ano passado. Vivemos numa sociedade em que nossa afetividade está muito ligada ao consumo. As expressões de amor, de carinho, passam pela oferta de algum produto, vide as datas comemorativas como dia dos pais, das mães. Então, a indústria explora um nicho que já existe, que é o da convivência entre animais humanos e não humanos baseada no afeto. Mas é óbvio que a publicidade dessas empresas vai aproveitar esse sentimento para vender mais produtos, para “criar” necessidades, para estabelecer comportamentos. É isso que vai fazer a indústria girar.

Eu tomo minha avó como exemplo. A gente tinha um cachorro, o Jode, e na minha infância não tinha isso de ração, biscoito canino. Nem se encontrava para vender. Todo mundo dava comida mesmo para os seus pets, geralmente sobras. Mas o Jode não comia sobras. Ela fazia uma alimentação especial para ele, com carne, arroz, legumes. Nós duas comíamos feijão requentado, mas ele só comia refeições preparadas na hora. Então, o amor, o interesse em dar o melhor já estava lá. O que a indústria faz é transformar essa entrega num produto, é criar o discurso de que você só ama seu animal de verdade se ele receber determinado tipo de tratamento – e daí quase não existe espaço fora da noção de pet como filho. Ela também valida uma percepção de que os interesses do animal são todos atendidos por meio dessa oferta de alimentos premium, roupinhas, brinquedos.

Essa crença é ainda mais danosa no caso dos pets ditos “não convencionais”, vítimas de tráfico, porque a maioria de nós está muito pouco familiarizada com as reais necessidades deles – e, talvez, se estivéssemos familiarizados, a posse de animais silvestres seria rejeitada com mais força pela sociedade.

 

*Entrevista reproduzida do site http://faunanews.com.br/

 

 


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