PROSA

A Freira



Poderia ser uma sexta-feira como tantas outras. O caminho planejado do trabalho para casa era o mesmo, sem pausas, sem digressões. Era uma mulher metódica e estava acostumada a repetir o mesmo roteiro pessoal. Nada de atropelos. Não gostava de surpresas. A sobriedade era sua marca. As roupas eram sempre escuras, os gestos, estudados. Não falava nada que não fosse arquitetado vagarosamente. Andava sempre olhando para o alto, longe, longe de todos. Mas, sentia um não sei quê de frustração que lhe arrepiava a pele. Vasculhou o celular em busca de alguma lembrança que saciasse a sede. Nada. Não, quase nada. As mensagens diárias dos exs continuavam preenchendo a sua caixa de entrada. Sempre se achou uma mulher bem resolvida. Nunca traíra, enganara, ofendera. Por isso, eles insistiam em não ir embora. Mas, agora algo entalado no fundo da garganta ousava ser espirrado como uma comida podre que ela não conseguia digerir. Este era o problema. Um passado que insiste em acontecer é um presente que nunca existe. Não, não havia recaídas. Se houvesse, ela estaria agora acontecendo. E não era o caso. O arrepio aumentava por dentro da pele e exigia um remédio. Os seios doíam e inchavam embaixo da blusa delicadamente abotoada. Sim, ela era o passado que eles insistiam que sobrevivesse para analisar, opinar e, pior, absorver todos os seus fatos. E não era padre. Padre tem “falo” se impondo nos gestos, nas atitudes. A irritabilidade aumentava.  De uma hora para a outra, ela caia em si que caminhava para casa na pior condição de freira numa recatada ausência de uma vida pessoal. Ia a pé, em jejum. Havia tirado os sapatos e, pela primeira vez, em quarenta anos, milagrava-se. Mas não era leve. Tinha o peso de quem carregava no corpo camadas de hábitos de respeito costurados por sutis sermões diários: “você anda tão equilibrada”. Em outras palavras, “você não está dando feito uma louca por aí. Para que, não é? Se já não teve a mim. E eu fui o melhor”. Irava-se como nunca à medida que seu olhar ia perdendo o tom melancólico e ganhava um inusitado ar de deboche, raiva. Homens, grandessíssimos idiotas, repetia-se, apenas mexendo os lábios em silêncio. Consideram-se uns Zeus espalhando virilidade em suas presas e matando-as, quando descobrem sua verdadeira imagem de dentro. Levantou a saia para chutar uma pedra. Ela bem conhecia suas mais íntimas fragilidades. Era capaz de dormir com a cabeça encostada no peito do outro, ouvindo o que há por trás do oscilar de sua respiração. Mas, agora, descobria que ela quem andara dormindo e, agora, era forçada a acordar no fim de um túnel onde via a imagem do convento que ajudara a construir para si mesma. E as vozes dos exs eram seus muros, chamando-a para uma confortável e silenciosa sela. “Venha, ajoelhe-se e rezes por nós. Todos. Todos nós. Não acha que já não tem santo demais para o seu altar? Pegue a nossa memória e esfregue por entre as suas pernas, quando tiver insônia de noite e teu lençol estiver mais frio do que um céu sem estrelas”. E um terço quebrava dentro de sua alma com bolas de fogo queimando e gemendo. “Pernas fechadas e lábios só escancarados para a aceitação da hóstia da sociedade”. Tentou distrair-se. As imagens do mundo lá de fora a esqueceriam. Ledo engano. A vitrine de uma loja fechada espelhou o luto sagrado por maridos vivos que voltavam, mesmo na ausência, a se portarem como pais incestuosos. Não haveria fugas. Ela teria que responder-se. A rua permanecia silenciosa à escuta de uma batalha interior iniciada, quando a chuva de dentro começou a querer despencar, jorrando, forte, intensa, numa presença intolerantemente extravagante. “Para que este cabelo tão loiro, chapeuzinho? É para aparecer melhor. E este vestido tão curto? Para me mexer melhor. E esta boca tão vermelha? Para devorar melhor e não é você, seu lobo”. As vozes respondiam, debatiam, pelejavam: “Olhe para si. Resolveu enganar-se? Você usa um hábito preto, severo, casto, da intransigente responsabilidade de uma mulher experiente, e, por isso, equilibrada”. Agrediam. E ela apressava os passos, ciente de que a pior fuga existente é a de si mesma. “Passos controlados, minha filha, leves, contidos. És casada com Deus e Deus é a tua preservação de si mesma”. Sua respiração alterava-se, diante do inevitável. Batia, batia na barriga, num desespero de quem precisa matar-se para abortar um feto envelhecido. E a chuva descia pelas coxas lavando os pudores, os medos, os receios, a intransigente mania de esconder-se de si no silenciar das mais perversas vontades. E ela a recebia como a um novo batismo de descoberta de sua própria carne, de olhos fechados numa mundana oração de si mesma. Os passos foram cessando, cessando até que. Parou. Brusca, decidida. Diante da mesma porta de todas as noites, com o ventre inchado, as cólicas berrando e as pernas completamente sangradas, deu seu chute de misericórdia, respondendo para si mesma em gargalhadas: “hoje não, hoje nem a pau”. A porta caia e com ela, o bom hábito. E Cassandra soltou os cabelos até ficarem completamente desarrumados. Tirou as combinações uma a uma, exortando os seus pesos. Botou seu vestido mais vermelho e riscou seus olhos até borrar o que há de mais singelo, meigo e frágil numa mulher, ciente de sua condição, agora, de sacerdotisa. Mas, antes de ir embora gritar diante do Cavalo de Tróia, deixou gravado no velho telefone fixo da casa arrombada: “a freira não se encontra em casa. Saiu para DAR. Deus vos abençoe”. 

 

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clarissa

Clarissa Loureiro é escritora e professora, nascida em Campina Grande (PB), está radicada em Pernambuco faz horas. É doutora em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco ( UFPE). Leciona as disciplinas Crítica Literária, Intersemiose e Literatura Portuguesa na Universidade de Pernambuco ( UPE). Lançou os livros de contos "Mau hábito" (2011) e "Invertidos" (2013), além do romance "Laurus" (2019), todos pela Editora Bagaço. Mora em Petrolina (PE) e dedica-se aos Estudos Culturais e de Literatura Comparada

 


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