VAI D!D!

As intensidades de Adir Sodré



adir antigo

Obra da fase inicial de um artista cheio das inquietações

No começo dos anos 1980, ao lado da UFMT, um dos points adotados pela efervescência cultural cuiabana era o Bar do Japonês. Desses locais de balcão e umas dez mesas espalhadas pela calçada, bem na esquina da avenida Fernando Corrêa com a rua 1 do Boa Esperança. Quase todas as noites, ali estávamos molhando a palavra.

Adir Sodré era um artista plástico que chegou chegando naqueles tempos e rapidinho apresentou sua criação impactante, a princípio, com um traço que flertava com a arte naïf, mas não demorou a evoluir para uma plena liberdade onde a explosão cromática e o traço passaram a demonstrar uma arte única, com acabamento primoroso e originalíssima. A gente batia o olho numa tela e nem precisava conferir a assinatura, pois ali estava o estilo inconfundível de Adir. 

Não vou me estender formalmente sobre o currículo de Adir. Falarei aqui sobre minha convivência com ele, sempre muito divertida e enriquecedora. Ele era artista plástico, daqueles performáticos, interessado em música, cinema e literatura; e dono de uma inteligência crítica e aguda. E foi no Bar do Japonês, em 1983, na véspera de uma das suas primeiras exposições, que o conheci em carne e osso.

adir cerimônias

Adir em cena no doc. Cerimônias do Esquecimento (2004), sobre Ricardo Dicke

Ele estava com cartazes da sua mostra, divulgando-a. Sentou-se comigo e com a Fátima (minha esposa ausente, que certamente há de reencontrá-lo noutros planos). De imediato, com seu traço peculiar, retratou-nos e presenteou-nos. Há poucos dias aconteceu um acidente doméstico no lar tyrannus. Os dois retratos estavam guardados num armário que ficou com a porta entreaberta e uma das minhas gatas entrou no armário e estraçalhou os dois retratos. Procurei pelas fotografias que fiz desses desenhos, mas, por enquanto, achei apenas a do meu retrato.

Desde quando fomos retratados por Adir, várias vezes, conversamos sobre aprontarmos algo em conjunto, mas isso nunca passou de conversações. Ao longo de quase 40 anos de convivência com ele, pela minha cabeça andou habitando uma espécie de "vingança", contra o retrato que ele me presenteou. Pelo menos um poema sobre ele haveria eu de fazer, mas nunca lhe disse isso, e nem imaginava que meus versos para ele seriam motivados por algo tão fatídico.   

Nesta era pandêmica eu andava tendo contatos quase diários com Didi. Há poucos dias falamos sobre peso da idade em nossos ombros. E a morte. Ele disse que ia fazer 58 e que a gente não pode nem morrer, tudo é covid. Lamentou que o povo, hoje em dia, acha ruim morrer com 80, e que 80 tava bom pra ele.

adir nina

Nina Hagen, a roqueira punk, segundo a criação de Adir

Adir, arrisco dizer, foi o artista mais cult e global que Mato Grosso já teve. Me apresentava sempre novidades incríveis para além das artes plásticas. Antenadíssimo com o novo, com o ineditismo. Foi um cara que me influenciou muito e ajudou a lapidar minha formação. Fico bastante órfão com a sua ida.

Quando estreou com seus florais, que eu gosto de classificar como um rococó pra lá de futurista, tamanha a riqueza de detalhes, nunca mais abandonou essa fase. Ganhou dinheiro com isso, mas a sua inquietação como criador autêntico, batia duro no seu íntimo com essa repetição de padrões.

recorte

adir

Valioso presente de aniversário que faz sala no tyrannus

Minha imagem de Adir e a proximidade que desfrutei com ele levam-me a crer e louvar um criador eternamente insatisfeito e perseguidor do improvável e do inusitado. Daqueles artistas que não chega a saber direito o que quer, mas quer. 

Estou mais para as performances que ele aprontava, flambando as telas com encenações embaladas por trilhas sonoras pinçadas pelo seu bom gosto musical, pintando e repintando, construindo e descontruindo contextos inabaláveis e libertários. O Adir que retratou a musa Roberta Close e a roqueira punk Nina Hagen...

O Adir que fazia festas e farras onde eu e a Fátima sempre estávamos presentes. O artista que, além de me retratar, quando eu tinha vinte e poucos anos, voltou a presentear-me com sua arte no meu aniversário de quarenta anos.

adir roberta

Roberta Close retratada por Adir Sodré no ano de 1985

E então, chegou a hora dele. E também a hora de eu lhe dedicar alguns versos e um texto que precisa ser traduzido pelo amor e pelo carinho. Vai D!d!...


para didi

aquela vontade doida
de escrever um livro inteiro,
um tratado intergaláctico
sobre o amigo que se foi

bom, ele não era mesmo
deste mundo, escrevo,
com a potência intrínseca
da palavra rebelada 

o coração acelerado
pela notícia recente
e os flashes do convívio
na intensidade de adir sodré

vai, segue teu caminho didi.
o artista dos florais
cheios de caralhinhos e bucetinhas,
e das inquietudes universais

suas histórias e conversações
intermináveis e interessantes
cravadas para sempre
em nossa memória coletiva

adir loro

Adir, uma hora dessas continuamos nossas conversações


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