MERCADO MUSICAL

Lives... pra que te quero



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Viviane Cantarella: lives surpreenderam todo mundo

A quarentena imposta à população mundial pela pandemia do novo coronavírus provocou uma revolução no mercado musical em todo o planeta e popularizou as lives musicais. O futuro é ainda incerto, no entanto músicos, produtores; publicitários e profissionais do mundo digital concordam que as lives são um caminho sem volta. O novo formato de entretenimento pegou de surpresa o mercado musical que ainda não tinha experiência técnica para produzir as lives, com qualidade de imagem e som. Ao mesmo tempo foi preciso discutir mundialmente como evoluir em novos modelos econômicos para a comercialização da produção musical.

Desde o início da pandemia, as recomendações de distanciamento social, atingiram em cheio os eventos musicais e shows realizados nas casas noturnas e bares. Dados de um levantamento do Data SIM – Núcleo da SIM São Paulo de Pesquisa e Organização de Dados e Informações sobre Mercado da Música no Brasil, realizado em março de 2020, mais de 8 mil shows e apresentações foram cancelados ou adiados em 21 estados do país em 2020.

O público aprovou a nova tendência. Pesquisa da MindMiners, empresa de tecnologia especializada em pesquisa digital, feita a pedido do CNN Brasil Business, demonstrou que 76% dos participantes de lives querem a continuidade, mesmo após o fim da pandemia. O levantamento foi realizado com 500 pessoas, de todas as regiões do país e classes sociais distintas, nos dias 13 e 14 de abril. 

De um dia para outro milhares de músicos brasileiros ficaram sem palco e público. O setor de bares e restaurantes, o principal parceiro financeiro do mercado musical em todo o Brasil padece, até hoje, com as portas fechadas. A live chegou e foi a “salvação da pátria” para garantir o público. Profissionais da música avaliam que a ferramenta digital poderá ampliar esse público, atraindo pessoas que têm mais paciência para a vida noturna.

A migração do mercado musical brasileiro para as telas de celulares e de computadores foi rápida, exigindo conhecimento técnico para a produção das lives transmitidas pelas redes sociais e Youtube. De Nova York, nos Estados Unidos, passando por São Paulo e Rio de Janeiro e chegando a Cuiabá, as dificuldades enfrentadas para a produção e transmissão das lives foram semelhantes. Foi preciso reinventar a roda quando tudo que era possível para manter o setor se resumiu em lives.

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A Banda Strauss fez sua live utilizando cinco câmeras

A evolução das lives em Mato Grosso

Sambistas, bandas de rock e música instrumental e músicos de MPB e Blues de Mato Grosso entraram rapidamente na onda digital e aderiram ao movimento #ficaemcasa. O músico Wellington José Andrade Souza, conhecido como Berê, conta que disputar a atenção do público com tantas alternativas de entretenimento não é tarefa fácil. “É aquela velha máxima, sobrevivem os que se adaptam as mudanças, pois é impossível reverte-las”, comentou. As dificuldades de fazer uma transmissão de banda ao vivo surgiram rapidamente, “ afinal ninguém quer fazer algo amador, e o fazer profissional exige estrutura e recursos financeiros”, concluiu. Bêre é baixista, integrante da banda Camerata de Cuiabá e professor de música. 

LINK CONCERTO DA BANDA CAMERATA  https://www.youtube.com/watch?v=rZQNnXVXEj8&feature=youtu.be

Foi necessário correr atrás de profissionais experientes em transmissão de lives no Facebook e Instagram para obter os detalhes técnicos, principalmente quanto a qualidade do som e imagem. O guitarrista Danilo Bareiro recorda que antes da pandemia fazia uma média de quatro a cinco shows por semana. Com 25 anos de carreira musical, Bareiro logo percebeu a diferença de padrão de mixagem do som. “ Antes a gente tinha um retorno melhor do som porque o público estava presente e a caixa de som permitia que a gente percebesse a qualidade do som. Agora é preciso considerar o smartfone, celulares, computadores e o hometeather. No início foi angustiante porque não sabíamos se o som estava de qualidade”, disse.

A interação com o público durante as lives tornou-se outro desafio. “As pessoas enviam mensagens e os músicos não conseguem tocar e ao mesmo tempo interagir com quem está assistindo a apresentação e fazendo comentários. Então é fundamental ter alguém respondendo ao público. Na atual conjuntura não existem recursos para remunerar um profissional para isso”, argumentou Bareiro.

LINK DO POWER ROCK TRIO https://www.facebook.com/watch/live/?v=665552920689631&ref=watch_permalink

O comportamento dos músicos durante as lives também foi um dos fatores discutidos. Danilo diz que ao produzir lives é preciso ficar atento quando se faz um comentário “porque agora entramos na casa das pessoas”, alertou.

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"Transmitir só pelo celular não ajuda muito" (Charlyes)

Na opinião de Bareiro, que também é vocalista e professor de música, as lives aproximaram os músicos de pessoas que não frequentam shows e bares. ” Acredito que as lives chegaram e vão ficar e o trabalho dos músicos se transformou”, concluiu.

Hoje a música é líder de audiência no formato. Músicos de todos os estilos têm realizado transmissões em que apresentam seu repertório, nas lives, que acontecem normalmente nas redes sociais. É possível acessar gratuitamente uma programação extensa de shows online.

Do palco para as telas de celulares

No início da quarentena, as lives possuíam uma proposta bem modesta e tinham objetivo de arrecadar recursos ou cestas básicas para profissionais da música e pessoas carentes. O artista se apresentava em casa, filmando com seu celular e utilizavam o Instagram, facebook e Youtube. Foi assim que se apresentaram nos primeiros meses da pandemia, o brasileiro Nando Reis, a banda Rolling Stones e inúmeras bandas nacionais e regionais.

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"Une a banda e atinge público diversificado" (Jeanbass)

Na segunda quinzena de março, surgiram os festivais de música virtuais que reuniram nas lives dezenas de músicos brasileiros de diversos gêneros. O Festival Fico em Casa e o #tamojunto, iniciativa do jornal O Globo, transmitiram uma programação gerada a partir dos perfis no Instagram dos artistas.

Em Cuiabá, o Ixpiaí Festival foi o primeiro produzido na capital de MT,  organizado pelo músico André Coruja. A proposta foi de abrir espaço para inúmeros músicos apresentarem seus trabalhos. André relata que inicialmente foi preciso orientar todos de como produzir as lives quanto a som, imagem e sinal de internet.

“No Ixpiai Festival percebemos as limitações, como não contar com a banda completa por exemplo. Observei também a questão da gravação, a filmagem, mas isso impõe equipamentos apropriados. Naquele momento o objetivo era fazer música”, contou Coruja.

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Danilo Bareiro e os smartfones, celulares, computadores...

As possibilidades de cobrança pela live num primeiro momento não eram uma preocupação de boa parte dos profissionais de música. André acha difícil cobrar por uma apresentação através das lives. “ Por enquanto a maioria das apresentações são gratuitas e por isso acho complicado a cobrança. Eu vejo como uma arte de rua, onde as pessoas contribuem ou não”, avaliou.

Para os músicos independentes as lives representam um contato direto com o público. Acostumados a tocar em bares e festivais com um público de cerca de 100 pessoas, as lives chegaram a atingir mais de 5 mil pessoas de uma vez.

O Festival Roda Rock Zona Sul, produzido pelo músico cuiabano Charlyes Das Matas foi transmitido pelo Instagram no dia 6 de junho e reuniu 10 bandas ligadas à cultura urbana de Cuiabá e Cáceres em Mato Grosso e músicos dos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, e Espírito Santo. O movimento representa a história do rock local e o fortalecimento da música autoral. Ao todo, a primeira edição do festival Roda Rock Zona Sul atingiu 7.125 pessoas. Em julho foram feitas lives todos os finais de semana e a programação segue até agosto.

LINK PARA O RODA ROCK DAS MATAS https://www.instagram.com/rodarockdasmatas/?hl=pt-br

Vocalista da conhecida banda Lord Crossroads, Charlyes conta que a produção de lives proporcionou um aprendizado para todos. “ De acordo com a situação financeira de cada músico nem sempre é possível fazer lives com som e imagem de qualidade. Transmitir só pelo celular não ajuda muito. O correto é ter uma equipe especializada para produzir com boa qualidade. A maioria das bandas locais não tem recursos para investir no novo formato”, diz.

Charlyes argumenta que cantar longe do público foi estranho no começo, “ mas é gratificante ver pessoas de outros estados acompanharem a live. A interação com o público é bem legal. Acho que com o tempo e a prática de fazer lives os músicos vão ganhar conhecimento das questões técnicas como áudio e imagem. Tem que estudar mais. A qualidade do áudio é muito importante”, comentou.

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"Sobrevivem os que se adaptam as mudanças", diz Berê

A banda Straus, uma das mais conhecidas bandas de rock de Cuiabá, realizou sua primeira live em parceria com a casa noturna Malcom Pub em junho, com mais de duas horas de duração. Foi considerada pela equipe de produção do projeto “Malcom Lives”, como uma das melhores lives já transmitidas. O produtor da Strauss, Luís Henrique Andrade, conta que foram utilizadas cinco câmeras, sendo quatro fixas e uma móvel, “o que garantiu qualidade nas imagens e no som”, explica. A live da banda em parceria com o Malcom teve cerca de duas mil visualizações nas plataformas do Malcon no Instagram, no Facebook e no canal Youtube.

LINK DA STRAUSS NA MALCOM LIVE https://www.youtube.com/watch?v=IEvO_EbFsII&feature=youtu.be

Luis Henrique, acredita que em breve surgirão várias alternativas de comercialização das lives musicais. “O site Vaquinha tem sido usado. Esses sites cobram 10% do valor arrecadado e repassam depois de 25 dias. O que se tem hoje também é o patrocínio de empresas para fomentar as lives musicais”.

Qualidades técnicas e conquista de novos públicos

Para a cantora Viviane Cantarella, as lives realizadas em Cuiabá surgiram rápido “mas pegou os músicos de surpresa e nunca tínhamos feito shows nesse formato. O que importa mais é o som, mesmo as caseiras. A primeira que eu fiz foi com um celular Samsung e as pessoas elogiaram”, comentou.

O musico e baixista da banda Power Rock Trio, Jeanbass, acredita que as lives produzidas em Cuiabá, estão cada vez mais profissionais. Fazer um show sem o público presente é ainda um desafio, na opinião do baixista. “A gente gosta mesmo de tocar, então tem sido interessante, une a banda, e atinge um público diversificado, de lugares que nem sabíamos que tínhamos público”, comemora.

Só casa cheia salva o mercado musical?

As casas noturnas que realizam shows musicais em Cuiabá consideram a pandemia uma tragédia para o mercado musical. O Malcom Pub, que mantém shows semanais sentiu na carne as restrições causadas pelo novo coronavírus. As lives foram imediatamente utilizadas para oferecer shows das bandas locais ao público, mas nem de longe têm sido considerada pelos empresários como uma solução de faturamento.

As lives foram a saída para reinventar e garantir uma renda mínima para pagar as contas até a casa noturna possa voltar a ter “casa cheia”. Na opinião do empresário e proprietário do Malcom Pub, Alexandre Matozo, para os pequenos negócios “as lives deram um pequeno respiro. Mas a renda que se tem com as lives é muito pequena, pincipalmente para os músicos. Rola as vezes vaquinhas online mas é pouco recurso e nem se compara com o que o músico ganha com cachê”, comenta.

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Alexandre Matozo, do Malcom Pub

Os patrocínios surgem em casos de lives com determinadas bandas musicais, mas também são de valores bem baixos. “Não se pode comparar com o movimento de venda de ingressos e bebidas. Para o Malcom, que hoje é a maior balada de Mato Grosso, com capacidade para mil pessoas, o estrago feito pela pandemia foi imenso”, diz Matozo.

Idealizador do projeto “Malcom Lives”, Alexandre já perdeu as contas da quantidade de lives produzidas pela casa e transmitidas pelas plataformas do Instagram e facebook e pelo canal do Malcom Lives no Youtube. “Foram muitas, elas começaram nas quintas-feiras e seguiam até domingo. Chegamos a ter duas lives por dia, para que todas as bandas e músicos tivessem espaço. Investimos em novos equipamentos e pessoal capacitado para a produção das lives e a transmissão”, conta.

Lives: crescimento de 40% em novos inscritos no YouTube

De acordo com o site Think With Google, os usuários do YouTube passam 4 vezes mais tempo assistindo a conteúdos em tempo real do que assistindo vídeos on demand. De acordo com o YouTube, canais que transmite ao vivo pelo menos uma vez por semana apresentam um crescimento de 40% em novos inscritos e de 70% no tempo de exibição do canal.

Ainda segundo informações do site Think With Google, o patrocínio dessas apresentações tem sido objeto de grande discussão em todo o planeta por inúmeros motivos. “O primeiro deles seria o questionamento com relação aos custos de se fazer uma live. Ora, quanto a isso não há dúvidas de que os artistas estão tendo que se readaptar às suas novas realidades. Equipamentos melhores, velocidade da internet e o próprio aumento do consumo de energia, são imediatamente trazidos à baila nesta argumentação”, diz o jornalista Alex Silva.

Novos modelos econômicos e a comercialização das lives

Em março deste ano, a União Brasileira de Compositores – UBC publicou informações sobre a necessidade de planejamento e técnica para a produção de lives musicais. Além do Instagram, Facebook e YouTube, a UBC forneceu as possíveis soluções para quem quer monetizar durante a transmissão. 

Conforme da UBC, “a Stageit é uma das plataformas onde é possível monetizar uma live. Ela abriga performances de artistas musicais realizadas ao vivo via webcam. Com sede nos Estados Unidos, tem boas ferramentas para monetização de conteúdo. No Brasil, a Netshow.me atua no campo de transmissão, e há startups surgindo nesse horizonte, como o aplicativo OpenStage, `feito de artistas para artistas´, além de agências como a Clap.me, especializada em engajamento via live streaming, e o Sound Club, que conta com uma série de ferramentas para monetização”, informou a UBC.

A plataforma remunera da seguinte forma: o artista recebe entre 63% e 83% da venda de ingressos para a live, dependendo da faixa de vendas. A partir de R$ 1,5 mil em receitas brutas, o valor é transferido no mesmo dia para a conta bancária informada. No caso de artistas que não estão sediados nos EUA, cabe ao artista ou empresário fazer a declaração para efeito de tributação após o repasse. A plataforma também recolhe direitos autorais. 

O público pode comprar “notes”, a moeda criada pela Stageit, e depois adquirir os ingressos para os shows. A plataforma foi premiada no Midem, em 2013, na categoria “Direct To Consumer Sales & Content Monetisation”.

arthur alexander

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André Coruja, músico e organizador do Festival Ixpia

Foco nos bilhões faturados pelo e-commerce brasileiro

No Brasil, a Netshow.me nasceu em 2013 como uma plataforma exclusiva para shows ao vivo pela internet. Mas, como a ideia demorou a gerar receitas mais expressivas, desde 2016 optou por manter esse serviço e ampliar as transmissões ao vivo corporativas e de eventos. O software, diferente de uma live no YouTube ou Facebook, restringe o acesso e também tem opção de monetização (pay per view). Toda a tela de transmissão é 100% personalizada com a identidade visual da marca ou do artista e recursos como chat ao vivo e vários outros. 

O comércio online tem sido um importante aliado das empresas em tempos de quarentena. A última estimativa da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) é de que o e-commerce nacional fature R$ 106 bilhões este ano, alta de 18% sobre 2019. No caso do Carrefour Brasil, por exemplo, as vendas online mais que triplicaram no último mês como resultado das medidas de isolamento social. 

LINK PARA A UBC http://www.ubc.org.br/Publicacoes/Noticias/15122

O IGTV já mostra caminhos para a monetização. É um aplicativo de vídeo do Instagram para Android e iOS, pertencente ao Facebook. Este aplicativo permite vídeos mais longos em comparação com o Instagram. Embora o IGTV esteja disponível como um aplicativo independente, a funcionalidade básica também está disponível no aplicativo e no site do Instagram.

De acordo com o site Tecmundo www.tecmundo.com.br, em fevereiro deste ano, em algumas capturas de telas compartilhadas no Twitter, desenvolvedores do Instagram demostraram a página de “ferramentas para monetização” e como ela aparecerá para perfis elegíveis. Conforme as informações trazidas pelo site, assim que uma pessoa entrar, será informada que poderá “ganhar dinheiro com a exibição de anúncios curtos durante vídeos IGTV”. Basta concordar com os termos e políticas do “Instagram Partner Program”.

ECAD

A licença concedida ao YouTube e ao Facebook/Instagram contempla lives. Não há necessidade de artistas (ou produtores) pagarem direitos autorais pela execução pública musical nessas plataformas. Segundo o site Tecmundo, para que o Ecad faça a distribuição, precisa receber essas informações nos relatórios de uso disponibilizados pelas plataformas. 

Na hipótese de um artista criar sua própria plataforma para transmissões, ao vivo ou não, é necessária a licença do Ecad. O responsável pelo pagamento é o dono da plataforma em que a transmissão irá ocorrer. (*Josana Salles é jornalista e colabora com o tyrannus desde sempre)

 

 


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