PROSA

Proposital*



Teria sido de Clarice Lispector a afirmativa de que escrever uma só linha basta para salvar o próprio coração.

Salvar talvez nem tanto, mas acalmar, aplacar um pouco nossas dores e o eterno desconforto desses que vivem deslocados no mundo por opção ou nascença, para isto, sim, creio que às vezes sirva.

Falar também pode resolver, desde que não sejam meras palavras ao vento.

E isso, por vezes, faço, ou pelo menos tento.

Dia desses, sentado na mureta da varanda na paz do sítio, início de uma noite de domingo, com meus sobrinhos Renato e Juliana, e atacado mais uma vez pela franqueza que a alguns encanta e a muitos desconcerta, pronunciei o mantra, carregando um pouco nas tintas, é claro, pois que sentença sem exagero não tem mesmo a menor graça:

– Eu, para dizer a verdade, nunca posso responder um “tudo bem” assim de coração, porque nunca estou de fato “tudo bem”.

Ao que a Juliana, muito séria, voltando para mim os olhos claros:

– Como assim, tio? Nunca “tudo bem”? E por que não?

Ora, ora, não porque não, como diriam as crianças: não quero porque não quero, não acho porque não acho, não vou porque não vou.

Não estou porque não estou...

Todavia, raramente esse desconforto se tornou para mim motivo de desespero – e quando o desespero bateu, na juventude, não foi nada assim tão sério que uns comprimidos de ansiolítico não dessem jeito, dia após dia (foram dez anos ininterruptos tomando-os, religiosamente).

Hoje não vou dizer que não os use mais, nem nunca mais. Claro que prefiro me defender com as forças naturais: respiração da yoga, suco de maracujá, a caminhada que tanto aprecio, mas, se a tempestade se anuncia, braba, há que se agir com todos os recursos à mão. (E, você sabe, a uma tempestade não se resiste com casinha de palha).

Então, se vier a precisar, de fato, uso, assim como, eventualmente, posso beber um pouco além da conta, comprar uma peça de roupa ou calçado acima do meu padrão, arranjar palavras em narrativas tortuosas pra iludir alguém (outro nome para a mentira), falar mais do que devia (da vida dos outros, naturalmente).

“Por isso é que eu bebo”, diriam outros, geralmente de brincadeira, como quando se vê passar uma mulher muito linda, em tese, inalcançável para as pretensões e os desejos do sujeito.

Por isso é que escrevo. Para salvar o próprio coração? Talvez, mas é que há nisso um propósito, essa palavra tão cara às gentes de hoje em dia, e, por isso mesmo, tão gasta. Escrever, conforme já disse tantas e tantas vezes, além de me preencher prazerosamente o tempo, me dá uma rara sensação de poder, de me bastar. Então, nesses momentos, talvez possa dizer, com total sinceridade, que estou realmente naquele “tudo bem”.

Meu nirvana sem drogas, lícitas e ilícitas.

Só pra contrariar o mantra, aliviar um pouco o espanto da Juliana e, de quebra, contar à minha amiga Camila Tardin que, sim, a minha vida tem um propósito: “Andie, este texto foi proposital”.

Desde que li um texto dela (publicado em A Gazeta) falando do alívio que estava sentindo desde que descobrira que não tinha mais a obrigação de viver “com um propósito de vida”, que pensei em escrever este texto.

Então, Andie, este, sim, foi proposital.

Pra você.


*Crônica reproduzida de https://oestadodematogrosso.com.br/

zé medeiros

marinaldo

Marinaldo Custódio não nasceu em MT, mas, já galgou a categoria de pau-fincado, como cuiabano, após passar temporada como pau rodado. Tem longa folha de serviços prestados ao jornalismo cuiabano, quase sempre como revisor, mas, naturalmente, migrou para a literatura. Já publicou os livros "Viagens Inventadas" e "Vestida de preto & outras crônicas", ambos pela Entrelinhas

 

 


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