LETRAS DELAS

Moderadamente!



gabriel nascimento

lunardi

"Adriana é sutil, retilínea, sem ser uniforme, constante sem perder o poder de surpreender, hábil, deixando os andaimes sobrepostos para que a diversão seja plena de descobertas pelo caminho" (LRSP)

Não consigo conter os ímpetos que a leitura tem impetrado em meu cotidiano. É doença, doutor? Pode falar que sim, estou preparado para o diagnóstico. É mesmo um distúrbio? O que pode ser feito para minimizar os efeitos? Fui procurar as respostas para essas perguntas todas e mais algumas. Acontece que sempre convivi bem com a patologia. O problema se instaurou, de fato, após a leitura inquietante do livro de Adriana Lunardi, “A vendedora de fósforos”. 

Claro que é apenas uma brincadeira. Foi a maneira que encontrei para iniciar esta crônica sobre o livro. Acabo de ler de Carrascoza “Aos 7 e aos 40” e “Aquela água toda” e um sabor imberbe da infância ainda está impregnado em meu cérebro, penso.  

“Preciso saber o momento exato em que a infância termina. Tanto peço, tanto insisto, que ela acaba revelando. Os advérbios” (LUNARDI, 2011, p. 9). 

O que fazer sem eles, os advérbios? Lembro como a “canção do Exílio”, de Gonçalves Dias se tornou um poema emblemático para a literatura brasileira. E o que seria dele sem os advérbios de lugar, aqui e lá, tão importantes para a compreensão do discurso? Decididamente não consigo imaginar o que faríamos sem eles. Quero dizer, viveríamos razoavelmente, é claro, mas faltariam temperos, com certeza.

livro miolo

 

O devir intertextual de toda a escrita se inscreve em um painel lírico/épico e ou trágico contagiante. Pareço estar em um cenário de histórias contadas com bonecos, mamulengos, chego a ver a neve encobrindo os telhados de algumas casas. Um certo ar longínquo me povoa o imaginário e a criança que fui parece habitar ao meu lado enquanto ouço com os olhos o texto do livro.

Quando falamos de inventividade, de campo semântico e esses conceitos da teoria literária, é como se abríssemos a caixa de ferramentas de cada escritor para enxergar o que habita seu conjunto. A de Adriana é sutil, retilínea, sem ser uniforme, constante sem perder o poder de surpreender, hábil, deixando os andaimes sobrepostos para que a diversão seja plena de descobertas pelo caminho.

“Minha irmã tinha talento para desvelar o traço de aparência definitivo de alguém e encontrar um correspondente verbal que o definisse. Ao vendedor de balas ele chamou Churchill, porque ele tinha uma oratória floreada e um eterno charuto à boca. Bobby era uma secretária de papai que nunca tirava os bobes da cabeça. General Smirnoff, o bêbado onipresente no bar da esquina, e dona Eulalia, a professora de português” (idem, p. 19).

A literatura não pode ser uma coisa muito séria, pareço parafrasear a Churchill, o das balas de verdade que dividiram o mundo durante a segunda grande guerra; pareço enxergar a secretária de bobis sentada ao colo do patrão escrevendo a própria carta de demissão; e o General Smirnoff, um homem gelado, conservado pelo frio siberiano que ostenta inúmeros graus abaixo de zero. Mas nada como a imagem cristalizada de Dona Eulalia, a professora que dava um banho de língua no idioma, cheia de afrontas à diversidade linguística da literatura nacional. Ah, a tal da Sociolinguística!

Eu já disse que era brincadeira, que era divertimento, que não era sério o que eu tinha a dizer. Pareço lembrar da “Bolsa Amarela”, da Lygia, e dos desejos crescentes da menina. Queria crescer logo, queria ser menino, já que eles podiam tudo e, pasmem, ser escritor: os escritores e suas cartolas mágicas, as tocas fantásticas cheias de brilhos e personagens espetaculares. 

“Meninas podem escrever? Foi o que me ocorreu como pergunta” (idem, p. 21).

Todos podemos escrever. Absolutamente todos. Podemos, dizem que há leitor para tudo, para todos. 

“Tudo começou a fazer sentido, muito sentido, demasiadamente. Era a pior parte dos comprimidos” (p. 83). 

Se tivesse que destacar algum aspecto do livro de Adriana, sem dúvida seriam os advérbios. A fantástica descoberta (para mim) de que a infância finda com a apropriação dos sentidos que um advérbio pode fazer na vida de alguém. Em nossa vida, principalmente.

Construímos nossos castelos de sonhos e eles adormecem em nossas narrativas, abençoam os escritos com carga de energia extra. Muitas “lifes” nos games. Nada de carne e ossos nas construções, mas palavras. 

“E não se enganem: temos as palavras, e apenas as palavras, para ajudar o leitor a enxergar” (idem, p. 159). 

As pegadas de Hans Cristian Andersen estão por toda a parte. Mas a história poderia muito bem viver sem elas. Não estamos tratando de João e Maria com suas migalhas de pão. Aliás, é bom que se diga, o miolo do pão, por mais que seja saboroso pode, definitivamente, embrulhar o estômago.


REFERÊNCIA
LUNARDI, Adriana. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

 

*Luiz Renato Souza Pinto é poeta e escritor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

 


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