ALMERINDA

A personagem que esteve fazendo falta



francisco alves

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Mesmo sem estar 100% recuperado, André teve uma performance vibrante e aguerrida, pois só assim é possível ser e estar Almerinda

No domingo passado (14), cerca de 300 pessoas assistiram emocionadas à peça “Os segredos de Almerinda”, no Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros. Mais do que o retorno ao palco da personagem Almerinda Lowsbi – uma das mais conhecidas e longevas do teatro mato-grossense -, o público aplaudiu com entusiasmo o tour de force do artista André D’Lucca.

Desde o início de março passado, os fãs desse ator, diretor, autor e showman cuiabano de 42 anos acompanham o seu drama com apreensão. No início, as notícias mencionavam uma depressão profunda, que levou a um grave quadro de desnutrição e à internação do artista em hospitais de Cuiabá. Seus amigos ficaram extremamente preocupados e se mobilizaram para arrecadar fundos de modo a ajudar André a pagar as despesas hospitalares e outros custos, já que ele parou de trabalhar. Nem o próprio André imaginava que era tão querido já que a onda de solidariedade arrastou até pessoas que ele não incluía no rol de amigos por sua atuação sempre crítica e provocadora nos palcos e na vida. Tudo isso culminou num espetáculo maravilhoso, que reuniu dezenas de artistas e um público numeroso no Cine Teatro Cuiabá no final de março.

Mais adiante, André D’Lucca foi diagnosticado como portador de histoplasmose, enfermidade transmitida por meio da inalação de um fungo encontrado em fezes de morcegos, e também conhecida como “doença das cavernas”.

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Para ver Almerinda, na plateia, estavam o governador de MT e a primeira dama, Virgínia Mendes, amiga que mereceu o carinho do artista

André reconhece hoje que a depressão e a consequente desnutrição (ele chegou a ficar duas semanas sem se alimentar e beber água) acabaram mascarando os sintomas da histoplasmose, surgidos em dezembro de 2018. “Quando entrei em depressão, a doença já estava bem avançada”, conta. Segundo ele, a depressão ficou evidente em fevereiro deste ano. “Eu não tinha mais vontade de trabalhar e comecei a recusar trabalhos. Comecei a achar que não tinha talento, dom para isso. Estava completamente desmotivado”, lembra.

Porém, quando caiu de cama, lembra André, seu maior desejo era voltar a se apresentar. Mas a histoplasmose já tinha atingido vários órgãos de seu corpo, obrigando o artista a uma luta desesperada pela vida. Aos poucos, ele se recuperou e anunciou sua volta ao palco, que aconteceu finalmente no último domingo.

E para essa volta nada mais significativo que ela acontecesse na pele da socialite Almerinda Lowsbi, a rica, de língua ferina e risada implacável.  Com seus segredos de alcova, Almerinda diverte o público e dá margem a que André inclua vários cacos mencionando personagens muito conhecidos da cena política mato-grossense. Ele contracena com o psicanalista (interpretado pelo ator Wagton Douglas) que, na maior parte do tempo, limita-se a ouvir a paciente escandalosa e autoritária.

Almerinda, segundo seu criador, nasceu em 2000 com o espetáculo “Antes só que só acompanhado”. Na sequência, o ator estreou a peça “Os segredos de Almerinda” que, por volta de 2004, foi reformulada sob a direção das atrizes Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães, que André conheceu no Rio de Janeiro, numa época em que fez trabalhos para a Rede Globo como ator.  A partir desse encontro, Almerinda renasceu e virou um ícone da cultura mato-grossense, quase um alter ego de André D’Lucca. 

Neste domingo, após o encerramento do espetáculo e os aplausos da plateia, o ator começou a falar com a voz de André, mas o público reagiu e ele retomou a voz de Almerinda para iniciar os agradecimentos, o que só comprova o sucesso da personagem.

André D’Lucca destacou as presenças da primeira-dama do Estado, Virgínia Mendes, a quem se dirigiu com muito carinho, e do governador Mauro Mendes.

“Desde que adoeci Virgínia segurou na minha mão e nunca mais soltou. Ela me ensinou uma grande lição: não julgar pela aparência. Eu achava que ela deveria ser super metida e quebrei a cara. Ela é muito querida. Não conheço o Mauro, mas minha amizade com sua mulher independe de minhas opiniões políticas”, comentou o artista em seu perfil numa rede social.  

Ainda no palco, um novo André pediu ao governador para resolver a questão da greve dos professores, que se arrasta há 50 dias. O governador parece não ter se aborrecido e fez questão de aguardar no foyer do teatro pela oportunidade de cumprimentar André/Almerinda, ao lado da primeira-dama e do secretário chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho, acompanhado por sua mulher Mônica. A cena aconteceu misturada a representantes de grevistas que exibiam cartazes divulgando sua luta.

“Esse fim de semana recebi o governador e alguns grevistas no meu espetáculo. Foi lindo. Me senti amado em ter amigos em todas as esferas. Almerinda começa uma nova fase onde ela será uma ponte na resolução de conflitos. Almerinda não quer só denunciar: ela quer resolver. Gentilmente e com respeito pediu a Mauro para resolver a questão da greve dos professores. E sei que ele vai atender esse pedido da Almê. Nessa queda de braço entre governo e sindicato quem mais perde são nossas crianças e jovens”, afirmou André D’Lucca.

“Não conheço o Mauro, mas minha amizade com sua mulher independe de minhas opiniões políticas. Quanto aos professores??? Eu não estaria aqui sem vocês. Precisei e preciso de professores pra sempre. Sempre estive e sempre estarei com vocês. Juntos vamos construir um MT melhor pra todos. Isso é democracia”.

Almerinda é realmente poderosa e sábia. Depois do espetáculo, André confidenciou que a rotina de divulgação do espetáculo o extenuou. “Percebi que não estava pronto para essa rotina. Foi puxado. Começou uma aflição, uma ansiedade, e voltei a sentir dores”, confessa. Ele disse que fez a peça com dores e morrendo de medo de não conseguir conclui-la.

“Graças a Deus, ninguém percebeu. Almerinda é uma força que me toma. Quando coloco aquela peruca e aquele salto, algo acontece. Já não sou mais eu. É outra pessoa”.

Salve Almerinda!!! Salve André D’Lucca! Que essa força de Almerinda e de seus outros personagens, tão caros ao público mato-grossense, continue te fortalecendo e amparando em tempos tão estranhos e carentes de humor, amor e comprometimento com as boas causas!

martha

Martha Baptista é jornalista e amiga do tyrannus. Assistiu ao espetáculo, conversou com D´Lucca e compartilha conosco suas impressões e vivência


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