CRÔNICA

O homem é um fabricante de merda*



 

"O homem é um fabricante de merda", é um verso do nosso poeta Sodrezinho. "Cagar é lei deste mundo, cagar é lei do universo, cagou Dom Pedro Segundo, cagou quem fez este verso". Desta trovinha, desconheço a autoria. Mas, por falar em Dom Pedro, um outro, o primeiro, consta a história do Brasil mais atualizada que teria bradado "Independência ou Morte", o famoso Grito do Ipiranga, motivado por uma diarreia braba que o acometeu naquele sete de setembro. E assim já fica aqui a nossa menção ao grande dia nacional que está chegando. E vamos fazer o possível para não retomar o tema, a não ser que... Não sei!

Merda, cocô, excremento, bosta, barro, fezes é resultado ou o produto final da digestão. Elas podem dizer muito de quem as expeliu porque trazem no seu conteúdo informações genéticas (células) e dizer seus hábitos alimentares e até níveis de stress.  

Pisar na merda = boa sorte (?)

Escatologia ou coprologia é o estudo das fezes muito diferente do homônimo na teologia e filosofia, que trata do destino final dos seres humanos, ou seja, o fim do mundo. Nem sempre usamos essa palavra para expressar a nossa ira, insatisfação... ou para mostrar algo sujo. No teatro, por exemplo, é uma maneira de desejar boa sorte.

Quem está enfezado, está acumulando fezes. E isso parece interferir no humor da pessoa. Há outros significados. Dizia-se enfezados para os escravos que carregavam latrinas com excrementos de seus donos para jogar nos rios. Enquanto andavam as fezes lhe escorriam pela cabeça, então ficavam enfezados. Outro vem do fato dos touros que, para demonstrar sua ferocidade, defecam e espalham suas fezes. Daí usar enfezado para pessoas bravas.

Sem cerimônia

 "Arrotou pesadamente e ficou cismando: aquelas iguarias eram suculentas, isso não podia negar. Que prisioneiro saboreava manjares tão deliciosos? Que, depois, lhe rendiam em juros, na sua privada particular, ali no canto, ao lado, discreta, em exsudações penosas, entre demoradas eructações intestinais e borborigmos em cadeia, por caminhos e ductos de trabalhoso fígado e fustigantes bílis, laboriosas evacuações de elaboradas horas que lhe proporcionavam rebanhos de conjecturas que o invadiam em miríades, como invadem os pastos e os campos suas extensíssimas boiadas sem fim". De uma forma erudita, Ricardo Dicke descreveu uma cagada, com riqueza de detalhes. O parágrafo acima está na página 59 de Cerimônias do Sertão, bela obra lançada neste ano pela Carlini & Caniato.

É incrível como esse ato humano, fisiológico, é cercado de cuidados quando o assunto vem à tona. Não é, reconheçamos, um tema que costuma ser tratado livremente e sem pudor. E se assim o fizermos, sem querer ser redundante e já o sendo, pode dar merda. Pode espantar leitores e pode gerar comentários desprezando a abordagem ao ato de defecar e seu produto.

 

 

Nestes tempos modernos, está quase em desuso aquele aparelho que, através do telefone, envia documentos de papel. Daí, que 'passar um fax' hoje em dia está em vias de se restringir apenas ao seu significado metafórico que, imagino, vocês sabem qual é. É importante estarmos atentos a esses prolegômenos idiomáticos.

No filme de Philip Kaufman "Henry e June - Delírios Eróticos" (1990), a atriz portuguesa Maria de Medeiros personaliza a célebre Anaïs Nin, que formou com o escritor Henry Miller e sua esposa, nos anos 30, um triângulo amoroso. Lá pelo final do filme, a personagem de Maria solta um curioso ditado português que tem a ver aqui com o nosso assunto: "Se merda tivesse valor, pobre não teria cu".
  

Maria de Medeiros


 Em outro filme, este de Pasolini (um dos que compõe a trilogia "Decameron", "Contos de Canterbury" e "As Mil e Uma Noites"), é apresentada uma cena impressionante. Bom, quem conhece Pasolini sabe do seu potencial para impressionar. Mas a tal cena mostra um diabo gigante e grotesco, mais pela sua retaguarda, peidando e cagando frades franciscanos.

Pasolini

Merda e ouro

 

"merda é veneno.
no entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
a bosta da pessoa amada".
(paulo leminski)

 O arquivo de imagens do Tyrannus tem uma série de fotos que denominamos de "cagadas". As estátuas, coitadas, que não fazem mal a ninguém vivem sendo coloridas pelas cagadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 *Crônica publicada originalmente em três de setembro de 2011, quando o tyrannus era escrito a quatro mãos, por este redator e a saudosa Fátima Sonoda. Há questões temporais que remetem à data original da publicação que não foram alteradas


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1 Comentrio(s).
Adoro este blog... Me inspiro sempre aqui...
enviada por: Ruth Albernaz Silveira    Data: 22/10/2012 10:10:10

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